A relação entre entretenimento e responsabilidade ambiental é o centro do problema de “Digger”. O filme tenta dividir entre empresários, presidentes, público e realizadores a culpa por um futuro marcado por desastres, mas essa escolha enfraquece a denúncia que a própria trama pretende fazer.
A história acompanha Digger, um poderoso empresário do setor de petróleo interpretado por Tom Cruise, enquanto uma plataforma de exploração se rompe na Groenlândia. O episódio desencadeia uma crise ambiental de grandes proporções, com consequências nas costas europeias e implicações geopolíticas. Também entram em cena um presidente dos Estados Unidos, militares, religiosos e representantes do poder econômico.
A ambientação permite ao filme explorar o desprezo demonstrado pelos personagens americanos em relação aos aliados europeus. Esse é um dos elementos mais interessantes da produção, mas aparece de forma breve. A sátira política e o registro farsesco adotados por Alejandro Iñarritu acabam dominando a narrativa.
Excesso de ruído
A farsa mantém um ritmo frenético do começo ao fim, com atores gritando e interpretações exageradas. Tom Cruise surge tão transformado no papel de Digger que sua presença se torna pouco reconhecível. Sandra Hüller também aparece em uma atuação distante de seus trabalhos habituais.
A construção visual é marcada pela monotonia cromática, enquanto o som reforça a estridência. Com isso, o conteúdo político fica prejudicado. As relações entre políticos, empresários, militares e religiosos são apresentadas de maneira direta demais, deixando pouco espaço para ambiguidade ou descoberta.
O filme também aproxima sua catástrofe ambiental de “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, ao tratar de militares e de crenças na superioridade dos anglo-saxões, especialmente dos Estados Unidos. Em “Digger”, porém, o confronto entre um general e um cientista de origem indiana, interpretado por Riz Ahmed, introduz acusações de racismo. É um dos momentos em que o humor de Iñarritu funciona com mais precisão.
A produção ainda coloca Digger, o presidente e seus assessores em uma batalha contra a natureza em nome da fé em Deus. Ao incluir o público entre os responsáveis pelo desastre, a trama aproxima o espectador da culpa, mas cria uma contradição: a necessidade de entretenimento não se conecta de modo convincente à responsabilidade pelos danos ambientais.
O resultado é um filme de tema atual e boas intenções, mas prejudicado pela combinação de histeria, excesso visual e uma ideia sobre espetáculo que parece forçada. A abordagem política perde impacto, e o conjunto termina confuso e fraco.








