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Suspense expõe bastidores e contradições do universo das “tradwives”

“Virtuosas”, de Cíntia Domit Bittar, acompanha uma influenciadora fictícia que transforma submissão e rotina doméstica em negócio.

Suspense expõe bastidores e contradições do universo das “tradwives”
Foto: Divulgação

No filme “Virtuosas”, a personagem Virgínia transforma a defesa da submissão feminina em conteúdo e fonte de renda. Cristã e conservadora, a influenciadora fictícia ensina mulheres a cuidar da casa, do marido e dos filhos, enquanto divulga seus princípios nas redes sociais.

A produção dirigida por Cíntia Domit Bittar estreou na quinta-feira, dia 24, e aborda as chamadas “tradwives”. O termo identifica mulheres que apoiam uma divisão tradicional dos papéis de gênero: o homem aparece como provedor, enquanto a mulher se dedica à casa, à família e a Deus.

Uma personagem construída como ameaça

Virgínia orienta suas alunas a acordar às 5h30 para preparar marmitas, colocar os bebês para dormir e organizar a mesa de jantar. No fim do dia, também ensina como produzir vídeos para as redes. Para Bittar, a protagonista é uma vilã criada de forma irredutível e persuasiva.

A diretora afirma que as “tradwives” são personagens ambíguas, combinação que considera atraente para histórias dramáticas. Ela pesquisa há quase 20 anos o avanço do conservadorismo e do fundamentalismo religioso no Brasil. Durante a pandemia, quando o tema ganhou força nas redes, decidiu transformar o assunto em longa-metragem.

O filme provocou reação antes da estreia. A influenciadora e empresária Marina Lenk publicou um vídeo, baseado apenas no trailer de dois minutos, dizendo aos seus 642 mil seguidores que a produção foi feita para “ridicularizar as mulheres cristãs que estão em busca de sua melhor versão”. Lenk afirma que não viu nem pretende ver o filme. Ela não se define como “tradwife” e diz estar tentando se tornar uma virtuosa.

A expressão vem do versículo 31:10 do livro dos Provérbios, no Antigo Testamento. O texto bíblico descreve uma mulher que faz bem ao marido, acorda antes do amanhecer, prepara a comida da família e administra uma atividade lucrativa. Lenk afirma se sentir autorizada por Deus a ser submissa ao marido e trabalhar fora.

O tema em livros e na religião

Bittar considera contraditória a defesa simultânea de carreira e submissão, porque, segundo ela, existe um limite simbólico: o homem continua sendo visto como provedor. No Brasil, a ideia de mulher virtuosa também foi difundida por grupos religiosos, incluindo o Godllywood, criado por Cristiane Cardoso, filha de Edir Macedo. O grupo surgiu nos Estados Unidos em 2009 e chegou ao país no ano seguinte.

As reuniões migraram também para comunidades digitais. Para Bittar, o provérbio passou a ser distorcido como instrumento de controle pela fé. Ela afirma que espaços para mulheres nas igrejas são importantes, mas podem ser usados para defender o retrocesso.

A mesma discussão aparece em obras de suspense. Em “Bons Tempos”, uma influenciadora “tradwife” é levada ao século 19 e confrontada com a falta de direitos básicos. O livro viralizou no TikTok, chegou ao topo das listas de mais vendidos dos principais jornais dos Estados Unidos e terá uma adaptação cinematográfica.

Já “A Dona de Casa Perfeita”, escrito pela britânica Sarah Clarke Child sob o pseudônimo Liane Child, acompanha a ameaça à imagem de uma “tradwife” quando outras mulheres investigam seu passado. Para a autora, o gênero funciona porque essas personagens apresentam uma narrativa pouco confiável e escondem o trabalho por trás da suposta simplicidade.

A discussão também é relacionada a “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, publicado em 1985, e a “Mulheres Perfeitas”, de Ira Levin, lançado em 1972. No Brasil, a Darkside relançou o livro de Levin associando-o ao fenômeno “tradwife”.

Uma interpretação diferente aparece na dissertação de Beatriz Cavalcanti de Sant’Anna, defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. O estudo afirma que a mulher virtuosa pode ser vista como figura de sabedoria e autoridade, e não necessariamente como alguém passivo.

Bruna Linzmeyer interpreta Virgínia. A atriz pesquisou nas redes sociais o comportamento de mulheres virtuosas e também observou referências da política. A diretora diz que o nome da personagem é apenas uma coincidência com a influenciadora Virgina Fonseca, que tem 56 milhões de seguidores no Instagram.

Texto produzido pela Redação Janela do Fato com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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