SÃO PAULO — O pajé Yuquetee Munduruku conduzirá a abertura do Circuito de Teatro em Português, em 18 de setembro, com a cerimônia “Vozes da Primeira Nação”. A iniciativa marca a nova orientação do festival, que incorpora formalmente “Outras Línguas” ao título e passa a destacar falas e manifestações originárias do Brasil e da África.
Criado em 2003 pela atriz e diretora Creuza Borges, o evento chega à 15ª edição no Centro Cultural São Paulo. Ao longo de 23 anos, tornou-se uma rede de intercâmbio entre Brasil, Portugal e países africanos da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).
Para Borges, a mudança amplia o propósito original sem romper com a trajetória do circuito. “A principal transformação foi perceber que falar a mesma língua não significa ter a mesma cultura”, afirma a curadora. A programação busca valorizar diferenças culturais e criar espaço para que línguas e saberes pré-coloniais sejam ouvidos.
Espetáculos
A programação ocorre entre 18 e 27 de setembro e reúne montagens de diferentes países e estéticas. A companhia portuguesa Lobo Solitário apresenta “Damas da Noite – Uma Farsa de Elmano Sancho”, espetáculo ligado ao transformismo e à cena drag queen.
Da Guiné-Bissau, o grupo Piscadur di Letras leva “O Marinheiro”, releitura do texto poético de Fernando Pessoa que combina dramaturgia lusa com cantos e ritmos tradicionais guineenses.
Entre as atrações brasileiras, Leona Cavalli apresenta o solo “Elogio da Loucura”, dirigido por Eduardo Figueiredo. A montagem adapta a sátira humanista escrita por Erasmo de Rotterdam no século 16 e aborda empatia, relações de poder e os retrocessos do presente.
O grupo paraense Arte & Fato participa com “A Casa D'Água”, espetáculo que revisita a cheia amazônica de 1954 e trata da violência sexual intrafamiliar contra mulheres, em contraponto à romantização da lenda do boto.
Formação e acesso
Oficinas e encontros completam a programação. Entre eles está o Seminário de Intercâmbio e Economia Criativa, voltado a saídas profissionais e redes para criadores negros, indígenas e LGBTQIA+.
O evento é totalmente gratuito. Segundo Creuza Borges, a organização envolve passagens aéreas, vistos, hospedagens e acolhimento para artistas internacionais, em meio a variações orçamentárias. “Manter um festival durante 23 anos talvez seja o nosso maior desafio —e também a prova da importância que esse intercâmbio adquiriu”, diz a diretora.








