RIO DE JANEIRO — A parceria entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes começou com uma operação de produção que antecipou o financiamento de uma obra ainda não encenada. Antes da estreia de Orfeu da Conceição, em 25 de setembro de 1956, Vinicius vendeu ao produtor Sacha Gordine os direitos do texto e usou o dinheiro para montar a peça.
A estratégia ajudou a colocar no palco do Teatro Municipal do Rio de Janeiro a adaptação do mito grego de Orfeu para uma favela carioca. O poeta e diplomata assinou o texto, enquanto Antônio Carlos Jobim, então um pianista novato que tocava nos inferninhos cariocas, compôs a música.
Uma montagem marcada por encontros
A apresentação foi feita pelo Teatro Experimental do Negro, companhia do dramaturgo e ativista Abdias Nascimento. A montagem se tornou a segunda ocasião em que atrizes e atores negros ocuparam os palcos de um dos mais importantes teatros brasileiros.
A cenografia ficou a cargo do arquiteto Oscar Niemeyer. Para o músico, compositor e diretor de arte Bruno Leo Ribeiro, do podcast “Silêncio no Estúdio”, a produção reuniu arte, arquitetura e música em um momento de otimismo e modernidade no Brasil.
Na história, Orfeu usa seus talentos musicais para tentar resgatar a amada do submundo. Vinicius transportou esse personagem para o Rio e criou uma obra que colocou em contato a mitologia grega e a realidade da favela.
O jornalista e crítico musical Leonardo Lichote afirma que a peça combinou a modernidade intelectual europeizada com a luta da população negra por espaço nas instituições culturais. Ele também observa que a obra valorizava a favela como cenário de grandes dramas, mas a romantizava, assim como fazia com o negro.
A análise atual da montagem também identifica limites na forma como a negritude foi representada. Lichote ressalta que Vinicius escrevia sob a perspectiva de um intelectual branco e que a peça refletia elementos racistas presentes na sociedade daquele período.
Da peça à bossa nova
No mesmo ano da estreia, a Odeon lançou um LP homônimo, o primeiro álbum da dupla. Entre as faixas estava “Se Todos Fossem Iguais” a Você. Em 1959, o disco “Chega de Saudade”, de João Gilberto, trouxe duas composições de Tom e Vinicius, incluindo a faixa-título.
Lichote atribui a Jobim o desenvolvimento dos procedimentos harmônicos e melódicos e a Vinicius a contribuição lírica. João Gilberto, por meio do violão, teria dado a forma final ao projeto que ficou associado à bossa nova.
Em 1962, a dupla compôs “Garota de Ipanema”, descrita no texto como a música brasileira mais conhecida, mais gravada e mais tocada no planeta. A parceria também influenciou compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
A empresária artística Anita Carvalho destaca que a relação foi também profissional e durou décadas. Segundo ela, Vinicius usava sua circulação internacional e suas redes de contato para abrir portas e viabilizar projetos.
O alcance de Orfeu
Três anos depois da montagem, o cineasta francês Marcel Camus levou a peça ao cinema. O filme, chamado “Orfeu Negro”, foi premiado em Cannes e ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 1999, Cacá Diegues dirigiu outro longa baseado na obra, chamado apenas de “Orfeu”.
A peça voltou aos palcos em 2010, com direção de Aderbal Freire Filho. Para Lichote, a produção de Tom Jobim e Vinicius ajudou a projetar uma ideia de Brasil e a formar uma nova música popular brasileira.








