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Protesto no Ferro’s em 1983 garantiu circulação de boletim lésbico

Livro de Julia Kumpera recupera a mobilização que reuniu ativistas e parlamentares contra a discriminação no bar paulistano.

Protesto no Ferro’s em 1983 garantiu circulação de boletim lésbico
Foto: Divulgação

Um protesto realizado na noite de 19 de agosto de 1983 permitiu a circulação do boletim Chanacomchana no Ferro’s Bar, no centro de São Paulo. Organizada pelo Grupo de Ação Lésbica Feminista, a mobilização reuniu representantes do movimento LGBTQIA+ e os deputados Ruth Escobar, Eduardo Suplicy e Irede Cardoso.

Em um salão lotado, Rosely Roth subiu em uma mesa para denunciar a discriminação e defender a permanência do periódico no estabelecimento. O proprietário recuou. O ato teve repercussão nacional e, segundo a historiadora Julia Kumpera, rompeu um silêncio de décadas.

A história é reconstruída no livro Na Noite Lésbica: O Levante do Ferro’s Bar, publicado pela editora Autêntica. A obra inaugura a coleção Nossas Histórias, voltada a episódios da trajetória LGBTQIA+ no país.

Cultura lésbica e códigos de identificação

Frequentado por lésbicas nos anos 1970 e 1980, o Ferro’s era um bar de preços acessíveis na rua Martinho Prado, em frente ao Museu Judaico. O local ocupava um edifício que hoje não tem placa sobre seu passado.

Ativistas distribuíam o Chanacomchana no bar, que também era espaço de convivência e flerte. De acordo com o livro, as frequentadoras se dividiam entre as “fanchas”, associadas a cabelos mais curtos e camisas de botão, e as “ladies”, que usavam maquiagem e mantinham os cabelos mais compridos.

Mosquetão, pente flamengo e relógio no pulso esquerdo funcionavam como sinais para reconhecer possíveis interesses sem exposição direta. Kumpera afirma que a divisão entre fancha e lady também podia oferecer proteção, porque um casal com esse perfil poderia ser lido na rua como heterossexual.

A autora relaciona os limites impostos às mulheres na vida pública e a repressão histórica da sexualidade feminina à ausência de espaços lésbicos voltados à troca sexual. No Ferro’s, a fila do banheiro era usada para beijos e aproximações, mas atos mais ousados eram evitados.

Repressão e organização política

O livro também aborda operações policiais comandadas, no começo da década de 1980, pelo delegado José Wilson Richetti. As ações resultaram em detenções arbitrárias de pessoas queer, sob a justificativa de “moralizar” o centro e combater a “vadiagem”.

As frequentadoras do Ferro’s protestaram contra essas operações. O levante de 1983, porém, foi desencadeado pela reação dos donos do bar à distribuição do Chanacomchana.

Outros estabelecimentos, como Dinossauros, Moustache e Bughouse, faziam parte da sociabilidade lésbica no centro de São Paulo. Frequentadoras também formaram times de futebol clandestinos, em um período em que o futebol feminino era proibido no país.

O livro registra ainda referências culturais ligadas à época, como os romances entre mulheres escritos por Cassandra Rios, que teve pelo menos 36 livros banidos pelo regime militar, e o conto “Os Sobreviventes”, de Caio Fernando Abreu, no qual o Ferro’s é mencionado.

Texto produzido pela Redação Janela do Fato com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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