A América do Sul vive uma mudança na distribuição de forças. Enquanto Luiz Inácio Lula da Silva tenta manter uma agenda regional baseada em diálogo, infraestrutura e cooperação, governos vizinhos ampliam relações de segurança e comércio com os Estados Unidos de Donald Trump.
A divisão ficou evidente nesta semana, quando 14 países latinos do Escudo das Américas aderiram a uma declaração conjunta contra 24 organizações classificadas pelos Estados Unidos como “narcoterroristas”. O Brasil ficou fora. O mecanismo é liderado por Washington e reúne 19 países; Brasil e México não participam.
Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Guiana, Paraguai e Peru estão entre os países sul-americanos que aderiram à ação. O grupo inclui organizações como PCC e CV.
Estratégia brasileira
Em maio de 2023, Lula reuniu presidentes sul-americanos em Brasília. O encontro aprovou o Consenso de Brasília, voltado à coordenação regional em infraestrutura, segurança, saúde e economia.
A estratégia brasileira também prevê corredores de integração com países vizinhos e portos do Pacífico. A iniciativa busca ampliar a integração econômica e criar alternativas logísticas para o comércio com a Ásia.
O governo brasileiro tenta preservar canais de diálogo com países de diferentes correntes ideológicas. Infraestrutura, segurança pública, energia, segurança de fronteiras e combate ao crime organizado são apontados como áreas de cooperação.
Na Argentina, Javier Milei mantém uma relação estreita com Trump, defende maior abertura econômica e busca aproximação com os Estados Unidos. Buenos Aires também discute flexibilizar regras do Mercosul para permitir negociações comerciais individuais, posição que diverge da defesa brasileira de uma atuação conjunta do bloco.
Apesar dos atritos políticos entre Milei e Lula, a relação entre Brasil e Argentina não foi interrompida. A avaliação do governo brasileiro é que a mudança política nos países vizinhos não determina automaticamente um afastamento do Brasil.
Segurança e disputa por influência
A aproximação com Washington avançou na área de segurança. Após um pedido de Trump, 14 integrantes do Escudo das Américas anunciaram uma ação conjunta contra 24 organizações. A movimentação ocorre paralelamente à ampliação da presença dos Estados Unidos na região, com novos recursos, cooperação militar e de inteligência.
Foram redirecionados US$ 52 milhões para Colômbia, Equador, Peru e Panamá, além da previsão de envio de drones ao Comando Sul. Lula defende a cooperação internacional contra o crime organizado, mas rejeita a presença militar estrangeira no Brasil.
Para Maurício Fronzaglia, professor da Universidade Mackenzie, a movimentação também está ligada à disputa entre Estados Unidos e China. Segundo ele, Washington busca recuperar espaço na região, enquanto Pequim ampliou sua presença comercial.
A China se consolidou como um dos principais parceiros comerciais de países sul-americanos, incluindo Brasil e Argentina. Os Estados Unidos, por sua vez, procuram ampliar a presença em setores estratégicos no Hemisfério Ocidental.
A disputa regional também se relaciona ao cenário eleitoral brasileiro. Trump afirmou que todos os candidatos que apoiou em eleições na América Latina foram vitoriosos. Em discurso na ONU, Lula resumiu a posição brasileira: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”.
A avaliação em Brasília é que a aproximação dos vizinhos com Trump não representa perda automática de influência. O governo considera que esses países continuam dependendo do Brasil em diferentes áreas e que essa interdependência pode ajudar a preservar a capacidade de articulação brasileira.
A estratégia é negociar com governos de direita, centro ou esquerda quando houver interesses comuns. Para Fronzaglia, o Mercosul foi criado com a ideia de ampliar o peso dos países da região no mercado internacional e reduzir tensões históricas entre Brasil e Argentina.
A avaliação do governo é que Brasília não precisa escolher entre manter influência regional e dialogar com governos próximos de Trump. A intenção é buscar as duas frentes ao mesmo tempo.








