A ONU enfrenta sua maior crise financeira desde a criação, em 1945, após cortes de financiamento promovidos pelos Estados Unidos e por outros governos. A redução ocorre enquanto a organização também enfrenta disputas sobre sua estrutura, legitimidade e capacidade de agir em conflitos internacionais.
Os Estados Unidos deixaram órgãos como a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Conselho de Direitos Humanos e a Unesco. O país também bloqueou recursos para a UNRWA e reduziu verbas destinadas ao Unfpa.
Os americanos respondem por 22% do orçamento regular da ONU e por 26,15% do orçamento das operações de paz, conforme relatório do Serviço de Pesquisa do Congresso americano. Para 2026, o orçamento regular foi fixado em US$ 3,45 bilhões, 15% abaixo do valor de 2025. A redução incluiu o corte de 19% no quadro de funcionários, com a extinção de 2,9 mil cargos e mais de mil desligamentos em andamento.
Neste mês, o governo de Donald Trump pagou US$ 725 milhões ao orçamento regular e US$ 102 milhões para operações de manutenção da paz. A ONU informou, porém, que Washington ainda deve US$ 1,312 bilhão ao orçamento regular. Os pagamentos dos Estados Unidos estariam condicionados à continuidade de reformas na organização.
Impacto nas agências e críticas de Trump
As agências da ONU também foram afetadas. A Acnur reduziu seu orçamento em 16% e cortou cerca de 3,5 mil postos de trabalho. O orçamento planejado para 2027 é de US$ 7,14 bilhões, o menor em dez anos. Em 2025, a agência teve orçamento de US$ 10,6 bilhões.
Em outubro do ano passado, António Guterres afirmou que as Nações Unidas estavam em uma corrida rumo à falência. No discurso na Assembleia Geral, na terça-feira (22), Trump disse que os cortes buscam tornar a organização mais eficiente. Ele afirmou que o orçamento de 2026 foi reduzido em 15% e que mais de 4 mil cargos foram eliminados.
Trump também criticou a burocracia da ONU, a Unesco, a imigração em massa e o que chamou de agenda de extrema-esquerda. Para ele, os países devem preservar sua soberania.
Conselho de Segurança e reformas
Natali Hoff, professora da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), avaliou que a ONU atravessa uma crise de financiamento e de legitimidade. Para ela, o poder de veto das grandes potências paralisa o Conselho de Segurança quando há choque direto de interesses.
O colegiado reúne China, Rússia, Estados Unidos, Reino Unido e França como membros permanentes. Segundo Hoff, o Conselho voltou a ficar congelado diante das transformações recentes e não consegue resolver conflitos como as guerras na Ucrânia e no Irã.
Maurício Fronzaglia, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), afirmou que a estrutura da ONU dificulta reformas. A organização depende do comprometimento dos países-membros para executar suas resoluções e, por isso, pode ser mais burocrática e lenta.
Após criticar a ONU na Assembleia Geral de 2025, Trump criou o Conselho da Paz para a reconstrução da Faixa de Gaza e a mediação de conflitos. O grupo tem 27 países, enquanto as Nações Unidas reúnem 193 Estados-membros e dois observadores: a Santa Sé e a Palestina. Trump é presidente vitalício do conselho, independentemente de exercer mandato eletivo.
Para Hoff, a reforma da ONU depende dos Estados, porque a organização não pode alterar sua própria estrutura. Fronzaglia defendeu que a instituição reflita a distribuição atual de poder na geopolítica mundial.







