Documentos cujo sigilo foi levantado na segunda-feira (14) mostram um conflito institucional entre o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o ministro André Mendonça na condução da Operação Compliance Zero, ligada ao Banco Master. A relatoria do caso passou a ser do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, na semana passada.
Em março de 2026, a Polícia Federal pediu a prisão preventiva de quatro investigados, entre eles o controlador do banco, Daniel Vorcaro, e o operador financeiro Fabiano Zettel. Também foram solicitadas medidas cautelares contra servidores do Banco Central.
A Procuradoria-Geral da República (PGR) afirmou que o prazo de 72 horas para se manifestar era de “impossível atendimento” e declarou que não identificava “perigo iminente, imediato” que justificasse as medidas. Mendonça rejeitou o pedido de prazo adicional e autorizou as prisões.
Na decisão, o ministro citou indícios da atuação de uma milícia privada armada chamada “A Turma”, ordens de agressão contra profissionais de imprensa e acessos clandestinos a bancos de dados da PF e de organismos internacionais, como a Interpol. Os mandados foram enviados às autoridades policiais, com determinação para que a PGR fosse informada depois do cumprimento das ordens.
Disputa sobre dados e competência
Outro ponto de divergência envolve comunicações financeiras retidas pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). O órgão justificou a retenção pela presença de autoridades com foro no STF e no Superior Tribunal de Justiça (STJ), com base na Reclamação 88.121. O caso tramita na Petição 15.645.
A PGR também questionou diligências sobre contratos de consultoria jurídica ligados a integrantes do STF, incluindo o escritório Barci de Moraes, da advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes. Para a Procuradoria, Mendonça teria ultrapassado suas atribuições ao investigar autoridades com prerrogativa de foro sem provocação do Ministério Público ou decisão do Plenário.
A disputa alcançou ainda os dados extraídos do celular de Vorcaro. Mendonça recebeu uma cópia de segurança e afirmou que o arquivo permaneceu lacrado. A Polícia Federal entregou nesta segunda-feira (14) a íntegra do material aos gabinetes dos ministros Cristiano Zanin e Gilmar Mendes.
Participação de Gonet no julgamento
Paulo Gonet decidiu participar do julgamento de Alexandre de Moraes nesta terça-feira (15). Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que o procurador-geral esteve entre as autoridades presentes em uma degustação de uísque Macallan, realizada em um clube de Londres, em abril de 2024. A viagem foi bancada por Vorcaro, e um dos filhos de Gonet também participou.
A doutora em Direito Público Clarisse Andrade afirmou que a disputa se manifesta em petições, decisões, pedidos de acesso e questionamentos sobre sigilo e competência. O advogado Willian Pimentel avaliou que a posição da PGR expressa uma divergência institucional sobre o rito e a intensidade das medidas, sem comprovar favorecimento a Moraes.
Nos últimos dias, Gonet deixou de assinar algumas manifestações relacionadas ao caso Master, enquanto integrantes da PGR assumiram parte da condução dos processos. Para Andrade, a mudança diminuiu a exposição pessoal do procurador-geral, mas não representou abandono das posições da instituição.








