BRASÍLIA — O governo Luiz Inácio Lula da Silva avalia que a declaração do Escudo das Américas, assinada na 3ª feira (22.set.2026) por 15 países sob liderança dos Estados Unidos, pode ampliar a influência norte-americana na América Latina para além do combate ao crime organizado.
Divulgado à margem da Assembleia Geral da ONU, em Nova York, o documento é visto no Palácio do Planalto como uma possível porta de entrada para uma reedição da doutrina Monroe. A avaliação é que o combate às facções pode criar precedente para tratar como questões de segurança outras pautas estratégicas, como a regulação de big techs, a infraestrutura regional e a presença chinesa.
O acordo tem 3 eixos: econômico, de segurança e de coordenação multilateral. No eixo econômico, os signatários se comprometem a proteger cadeias de suprimento de minerais críticos com base em fontes diversificadas e confiáveis. Para Brasília, esse é o ponto mais sensível, especialmente porque o Brasil tem a 2ª maior reserva de terras-raras do mundo, atrás da China.
Diplomatas avaliam que minerais estratégicos, infraestrutura digital e a presença chinesa em portos e ferrovias brasileiros podem ser enquadrados como ameaças aos Estados Unidos. Durante as negociações para evitar o tarifaço, os norte-americanos pediram medidas para limitar investimentos estrangeiros em minerais críticos, sobretudo chineses.
A declaração também anuncia a intenção dos Estados Unidos de pedir ao Conselho Permanente da OEA uma reunião de consulta com base no Tiar, tratado de 1947. O governo brasileiro considera que esse processo pode levar semanas ou meses e, por enquanto, evita associar o acordo a um conflito armado na região.
Os documentos divulgados não mencionam ação militar contra o Brasil ou países vizinhos. A avaliação brasileira é que a pressão tende a ocorrer por meios diplomáticos e financeiros, como sanções, bloqueio de bens e restrições de vistos. O governo não vê risco de ação unilateral contra o Brasil pelos países que assinaram a declaração ao lado dos Estados Unidos.
Em 15 de setembro de 2026, a Casa Branca enviou ao Congresso dos EUA um relatório que acusou o governo Lula de falhar no enfrentamento ao PCC e ao CV. O documento cobrou ação urgente, mas não classificou o Brasil como produtor ou rota de drogas.
Horas antes da divulgação da declaração, Lula afirmou na Assembleia Geral da ONU que o Brasil tem instrumentos próprios contra o crime organizado, como a Lei Antifacção e a operação Carbono Oculto. O presidente rejeitou papel externo na segurança das fronteiras e defendeu que o acesso a minerais brasileiros siga regras definidas por Brasília.
Sem citar Donald Trump pelo nome, Lula disse: “não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas”. Segundo o presidente, a cooperação deveria conter o fluxo de armas e dinheiro que financia o crime organizado. A proposta foi entregue pessoalmente a Trump, em Washington, e ainda não teve resposta dos Estados Unidos.








