Publicações pagas de perfis estrangeiros passaram a promover Flávio Bolsonaro (PL) em conteúdos sobre as chances do senador na eleição brasileira. Entre os envolvidos estão o Visegrád24, a UHN Plus e a Polymarket, plataforma de mercados de previsão ligada a um fundo do qual Donald Trump Jr. é sócio.
Em 20 de setembro, o Visegrád24 publicou no X, para mais de 1 milhão de seguidores, que as chances de Flávio estavam subindo na Polymarket. A postagem trazia uma imagem do senador ao lado de Javier Milei e afirmava: “Se ele vencer, toda a América do Sul, exceto a Venezuela e o Uruguai, será governada por conservadores”. O conteúdo recebeu a identificação de “parceria paga”, posteriormente apagada.
O mesmo perfil havia feito publicação semelhante em 30 de abril, informando que Flávio aparecia à frente de Lula nas cotações, por 43% a 38%. Em fevereiro, o Visegrád24 também entrevistou o senador. Em 27 de janeiro, divulgou trechos de um discurso dele em Jerusalém.
A Polymarket não realiza pesquisa eleitoral. Usuários negociam contratos baseados em possíveis resultados, e os percentuais indicam o preço desses contratos. O governo brasileiro bloqueou a plataforma em abril, por falta de autorização para operar no país. Desde junho de 2025, a empresa é parceira oficial do X para mercados de previsão.
Em agosto de 2025, o fundo 1789 Capital investiu na Polymarket. Donald Trump Jr. é sócio do fundo, integra o conselho consultivo da plataforma e mantém proximidade com Eduardo Bolsonaro. A empresa informou em junho que retiraria o patrocínio de criadores que divulgassem informações falsas sobre eleições.
Javier Negre aparece em outras conexões da rede. Empresário espanhol, ele é vice-presidente da UHN Plus, que também publicou conteúdo pago sobre Flávio e se apresenta no X como “powered by Polymarket”. Negre é ligado ainda ao La Derecha Diario e à edição em espanhol do Visegrád24.
Fernando Cerimedo, ex-sócio de Negre, também integra essa cadeia de relações. O marqueteiro argentino recebeu em fevereiro um prêmio apresentado por Eduardo Bolsonaro em Mar-a-Lago. Na ocasião, Eduardo disse que venceria “as eleições de outubro com meu irmão Flávio”. Cerimedo agradeceu a Brad Parscale, ex-chefe da campanha de Donald Trump e criador da Campaign Nucleus.
Cerimedo está preso preventivamente na Bolívia. O Ministério Público boliviano o acusa de ser mandante de uma tentativa de feminicídio contra a ex-companheira, Nadia Beller. A defesa nega. Ele também foi investigado no Brasil por alegações sem provas sobre fraude na eleição de 2022.
Os documentos e registros públicos confirmam as conexões entre os envolvidos, mas não demonstram que exista uma única operação coordenada para beneficiar Flávio. Também não foi localizado contrato entre a rede e a candidatura. Cerimedo nega relação com a campanha e atribui a ligação com a UHN Plus, o Visegrád24 e a Polymarket exclusivamente a Javier Negre.
A legislação eleitoral proíbe conceder vantagem econômica a pessoas físicas ou jurídicas para publicações político-eleitorais em seus próprios canais. A Justiça Eleitoral deverá avaliar a origem dos pagamentos, os contratantes e eventual vínculo com a candidatura.








