SÃO PAULO — Um consenso internacional recomenda que a população geral seja rastreada para o diabetes tipo 1 antes do aparecimento dos sintomas. A proposta foi publicada neste mês na revista científica Diabetologia e esteve entre os destaques do Congresso da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes, em Milão.
O documento reúne especialistas de vários países e recebeu o apoio de mais de vinte entidades, incluindo a Associação Europeia para o Estudo do Diabetes e a Federação Internacional de Diabetes. A recomendação considera que mais de 85% das pessoas diagnosticadas não têm parente com a doença. Por isso, limitar os exames às famílias de risco pode deixar a maior parte dos casos de fora.
O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. O sistema de defesa ataca as células do pâncreas que produzem insulina, e esse processo pode ser identificado por autoanticorpos no sangue. A presença de dois ou mais deles indica o estágio 1, mesmo com glicose normal. No estágio 2, o açúcar no sangue começa a oscilar. Os sintomas e a necessidade de insulina aparecem no estágio 3.
Diagnóstico antes da emergência
A identificação antecipada permite acompanhar a evolução e orientar a família antes do diagnóstico clínico. Crianças monitoradas chegam a apresentar cetoacidose diabética em proporção inferior a 5%. Em um programa populacional da Alemanha, o índice foi de 3,2%, enquanto outras regiões do país registraram taxas entre 21% e 36%. Nos Estados Unidos, um centro encontrou cetoacidose em 4,9% das crianças acompanhadas, ante 48,5% na população local.
A cetoacidose é uma complicação grave e ainda está presente no diagnóstico de 20% a 67% das crianças e adolescentes no mundo. Um terço desses pacientes precisa de atendimento em unidade de terapia intensiva.
O rastreamento exige confirmação dos resultados e acompanhamento contínuo. Um teste positivo pode provocar ansiedade, e exames adicionais são necessários para reduzir falsos positivos.
Medicamento pode adiar a doença
Em março deste ano, a Anvisa aprovou o teplizumabe, primeiro medicamento capaz de retardar o diabetes tipo 1 no Brasil. O tratamento é indicado para pessoas a partir de 8 anos que estejam no estágio 2, identificado por meio do rastreamento.
Aplicado na veia, o medicamento é administrado em infusões diárias durante 14 dias consecutivos, em ambiente de saúde. No estudo que fundamentou a aprovação, o teplizumabe adiou em cerca de dois anos o início da necessidade de insulina. A forma clínica da doença apareceu em 43% dos participantes tratados, contra 72% no grupo placebo.
No Brasil, os exames de autoanticorpos estão disponíveis em laboratórios, mas são pouco solicitados. O país não tem um programa estruturado de rastreamento.
No estado de São Paulo, cada ampola custa cerca de 80 mil reais. O tratamento completo exige cerca de 14 ampolas, e o preço varia entre os estados, o que mantém o custo como uma barreira para muitas famílias e para o sistema de saúde.








