BALNEÁRIO CAMBORIÚ — A mudança no fornecimento de alimentos para a China colocou o Brasil em uma posição de destaque na disputa comercial entre Estados Unidos e China, segundo o economista Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento do Brics. O Brasil ocupa, nos últimos cinco anos, o posto de principal fornecedor de alimentos aos chineses, posição antes mantida pelos Estados Unidos desde o início da abertura econômica chinesa, em 1978.
O movimento ocorre enquanto o Brasil se aproxima da liderança norte-americana nas exportações agrícolas. No último ano, o país alcançou US$ 169,2 bilhões, ante US$ 171 bilhões dos Estados Unidos, conforme dados do Departamento de Agricultura dos EUA e do Ministério da Agricultura do Brasil.
Novos destinos para as exportações
Troyjo avalia que a China deve ampliar as compras brasileiras ao reduzir a dependência de alimentos dos Estados Unidos, da Austrália, da Nova Zelândia e da Europa. A demanda é relacionada à necessidade de garantir abastecimento para uma população de 1,5 bilhão de habitantes e com renda crescente. Ao mesmo tempo, a China é uma das maiores produtoras mundiais de alimentos e a maior importadora líquida do setor.
O economista também vê espaço para o Brasil aumentar sua participação no mercado norte-americano. Hoje, o país responde por entre 0,8 e 1,1% das importações totais dos Estados Unidos, o que, na avaliação dele, indica possibilidade de diversificar destinos além da concentração atual na Ásia.
Outra frente é o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia, que entrou em vigor em 1º de maio deste ano. A medida zerou ou reduziu tarifas para cerca de 5 mil produtos brasileiros. Nos dois primeiros meses de vigência, as vendas do Brasil ao bloco cresceram US$ 2 bilhões na comparação com o mesmo período de 2025, uma alta de 26%, segundo a ApexBrasil. A agência estima aumento de até US$ 7 bilhões nas exportações brasileiras.
Infraestrutura e minerais críticos
A expansão das vendas para a China e a União Europeia aumenta a importância da infraestrutura de escoamento, incluindo irrigação, armazenamento, portos e ferrovias. Para Troyjo, as dificuldades brasileiras podem atrair capital estrangeiro em um cenário de insegurança alimentar e energética.
O Ministério dos Transportes calcula que a logística brasileira deve receber R$ 300 bilhões em investimentos, considerando concessões de rodovias, ferrovias e portos. Entre 2023 e 2025, os leilões desses ativos geraram contratos de R$ 262 bilhões.
Troyjo também cita os minerais críticos, usados em áreas como tecnologia da informação, defesa, novos materiais e robótica humanoide. A existência de reservas, porém, não assegura ganhos econômicos: mineração e refino demandam capital elevado e longo prazo para retorno.
Na avaliação do economista, a tributação pode dificultar o processamento desses materiais no país. Enquanto outros países cobram entre 18% e 19% sobre a atividade, o Brasil pode aplicar carga de até 33%. A definição desse entrave, segundo ele, determinará se o Brasil ficará restrito ao fornecimento de matéria-prima ou se capturará parte do valor gerado pela disputa tecnológica entre as duas potências.








