SÃO PAULO — Em 10 de outubro de 1966, “A Banda”, de Chico Buarque, dividiu com “Disparada”, de Theo de Barros e Geraldo Vandré, o primeiro lugar do 2º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record. A marcha, defendida por Nara Leão, transformou o compositor de 22 anos em um ídolo de massa.
O sucesso levou Chico a uma exposição intensa em jornais, revistas, rádios e emissoras de televisão. Em São Paulo, algumas lojas chegaram a vender 50 compactos do cantor por hora. Duas semanas após o festival, a Philips informou a venda de 80 mil cópias da gravação de Nara, 20 mil da versão de Chico e 10 mil da interpretação do Quarteto em Cy. “Disparada” se aproximou das 60 mil cópias.
A canção também passou a ocupar espaços diversos. Em Belo Horizonte, a bicheira Benedita do Amaral deixou a banca para procurar o compacto e acabou presa depois que policiais encontraram 122 listas do jogo do bicho em sua casa. No mês seguinte, Chico foi recebido na capital mineira por quatro batedores, 35 policiais, sete bandas e uma multidão estimada em 30 mil pessoas. Em Curitiba, havia reunido 10 mil fãs.
A popularidade alcançou músicos, religiosos, escritores e políticos. Carlos Drummond de Andrade elogiou a composição em 14 de outubro. Dom Helder Câmara dedicou dez minutos de seu programa televisivo à análise da letra, enquanto Nelson Rodrigues relatou ter chorado ao ouvi-la. Em novembro, Carlos Lacerda entregou a Juscelino Kubitschek um compacto da música e afirmou: “Foi a única coisa alegre que aconteceu no Brasil nestes três anos”.
“A Banda” também foi executada em cerimônias militares. Em Brasília, Castelo Branco ouviu a música na troca de guarda do Palácio do Planalto. No Rio, os Dragões da Independência passaram a sair do Ministério da Guerra ao som da marcha, três minutos depois do toque de clarim, ao meio-dia das segundas e quintas-feiras.
A composição ganhou versões ou promessas de gravação na Alemanha, em Portugal, na Inglaterra e na França. Apesar da associação com a oposição à ditadura, Chico declarou que sua música não era política e que não pretendia servir a causas específicas.
Nascido no Rio, em 1944, o compositor havia se mudado para São Paulo aos dois anos. Em 1963, matriculou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP. “A Banda” abriu caminho para que outras canções de sua obra fossem conhecidas e marcou a trajetória de um artista que conciliou música, literatura e atuação pública sem se limitar a uma única corrente estética.








