LONDRES — Mais de 500 mil sobretudos Burberry foram usados por integrantes das forças armadas durante a Primeira Guerra Mundial. A transformação da peça militar em um item de moda é um dos temas de “The Burberry Trench: Crafting an Icon”, mostra gratuita em cartaz no museu Victoria and Albert, o V&A, até 3 de janeiro.
A exposição ocupa a Prince Consort Gallery, sala raramente aberta ao público, no museu de South Kensington. A montagem acompanha a evolução do trench coat a partir do tecido gabardine e do padrão xadrez conhecido como Burberry check.
Da gabardine ao uniforme militar
Thomas Burberry criou a gabardine em 1879, como alternativa aos materiais impermeáveis pesados e emborrachados usados na época. A sarja de trama fechada deu origem a um tecido leve, flexível e durável, empregado inicialmente em capas para atividades ao ar livre, como o ciclismo.
Em 1912, o material foi usado no tielocken, casaco com fivela na parte superior e gola com botões. A peça é considerada precursora do trench coat, que mais tarde ganhou versões bordadas, estampadas, de seda e metalizadas.
Durante a guerra, o sobretudo recebeu ombreiras, argolas em D, aba de proteção contra tempestades e quebra-vento. Uma peça de 1939, com insígnias de coroa e estrela nas dragonas, indica ter pertencido a um tenente-coronel do Exército Britânico. A mostra também exibe um modelo que foi de Edwin Hardy Amies, estilista da Rainha Elizabeth 2ª e dono de uma casa de moda na Savile Row.
Técnica e reinvenção
A parte central da exposição apresenta a fabricação do casaco na fábrica Castleford, em Yorkshire, adquirida pela Burberry em 1972. O local produz todos os trench coats da linha Heritage.
A montagem exibe etiquetas, tecidos, botões, fivelas e partes da modelagem. A gola é formada por oito peças de tecido, incluindo uma camada interna de linho firme. São necessários 270 pontos para curvá-la e ajustá-la ao pescoço. O fechamento usa 21 botões e quatro fivelas. Antes feitos de chifre, os botões passaram a ser compostos por 90% de resina de base biológica.
Entre os itens dos arquivos da marca e do museu está um conjunto de esqui em gabardine vermelho-cereja dos anos 1920, usado por Margaret Whigham, posteriormente Duquesa de Argyll. Segundo Oriole Cullen, curadora sênior de moda e têxteis do V&A, a peça combina a referência ao trench coat curto com luvas e chapéu coordenados.
A seção final trata das duas últimas décadas da marca, da era Christopher Bailey, entre 2001 e 2018, ao trabalho de Daniel Lee, passando por Riccardo Tisci, entre 2018 e 2022. Nessa etapa, o casaco aparece em diferentes comprimentos e materiais, como ráfia, couro de jacaré e laminado metalizado de seda, além de versões transformadas em vestido.
Cullen afirma que o trench coat se tornou um arquétipo reconhecível e usado como elemento de caracterização no cinema e na literatura. A exposição também marca a abertura da The Burberry Gallery, prevista para o outono de 2028. A transformação das galerias de moda do V&A South Kensington é apoiada pela grife em uma parceria plurianual com o museu.








