SÃO PAULO — O Instituto Moreira Salles reúne mais de 400 obras de Fernando Lemos na exposição “Quanto Mais Desejo, Mais Invento O Que Vejo”. A mostra apresenta fotografias, pinturas, poemas e desenhos e celebra o centenário de nascimento do artista luso-brasileiro, morto em 2019, aos 93 anos.
O trabalho de Lemos usava o surrealismo para transformar a realidade e abordar a repressão política. O curador Thyago Nogueira afirma que o artista “se dedicou a pensar um vocabulário da liberdade e a libertar a gente das repressões através da arte”.
As fotografias produzidas entre 1949 e 1952 registram a atmosfera da ditadura de António de Oliveira Salazar em Portugal. Vultos, sombras, portas, janelas e manequins aparecem em cenas marcadas pela penumbra, pelo mistério e pela sensação de perigo.
Imagens contra a repressão
Lemos chamava de “desocultação” a busca pelos mistérios do inconsciente. Uma das obras expostas mostra um cômodo escuro iluminado apenas pela fresta de uma porta entreaberta. Em outra, intitulada “Eu, Poeta”, o artista aparece deitado, com o rosto envolvido por fibra de vidro. A composição inclui uma carta que representa O Enforcado, arcano do tarô associado ao sacrifício e à crise, e um punhal.
O fotógrafo disse que a imagem remetia ao enforcamento e era uma brincadeira com a tortura. Para Nogueira, Lemos ampliou o surrealismo para além da criação artística e o transformou em uma forma de crítica às ditaduras do Brasil e de Portugal.
A linguagem simbólica também aparece nos retratos de Mário Cesariny, António Pedro e Hilda Hilst. Em vez de buscar a nitidez e a identidade fixa, Lemos explorava a dúvida e a multiplicidade. Sobre o retrato, ele afirmou: “Então o retrato deve ser múltiplo, para dar mais vida à imagem.”
Do exílio à crítica no Brasil
Lemos descobriu o desenho na infância, em Lisboa, enquanto enfrentava pobreza, repressão e complicações de saúde decorrentes da poliomielite. Embora tenha ficado conhecido pelas fotografias, fez das gravuras a base de seu trabalho.
A partir de 1953, deixou Portugal e se exilou no Brasil, onde viveu até morrer. Seus desenhos passaram a apresentar mais fluidez, erotismo e sinuosidade. Depois da tomada do poder pelos militares, em 1964, o artista voltou a usar a poética para confrontar censura e violência.
Na série “Moto Continuum”, criou objetos sem sua função original, como relógios sem ponteiros. As obras expressam a natureza questionadora de Lemos e sua defesa da cultura e da liberdade de expressão.








