O documentário “Naza”, que estreia no Brasil nesta quinta, reúne depoimentos de 24 militares da inteligência de Israel sobre operações contra palestinos na Faixa de Gaza. Os entrevistados descrevem o uso de vigilância digital, inteligência artificial e critérios para definir o número de civis que poderiam morrer em cada ataque.
O título é uma abreviação de “nezek agavi”, expressão em hebraico que significa danos colaterais. Segundo os militares ouvidos no filme, o sistema Lavender analisava celulares monitorados pela inteligência israelense e destacou entre 60 e 70 mil aparelhos associados potencialmente ao Hamas. A taxa de acerto atribuída ao programa era de 85%.
“Uma vez marcado o telefone, podíamos bombardear”, diz um dos entrevistados. Outro afirma que “Gaza virou uma fábrica de alvos”.
Alvos e mortes de civis
Os militares relatam que cada alvo recebia um limite de “naza”, ou seja, a quantidade de civis cuja morte era considerada aceitável em um ataque. Um deles diz que seu maior limite foi de 500 pessoas em uma operação aérea.
O filme também descreve o mecanismo chamado “onde está o papai?”, que emitia um alerta quando um suposto integrante do Hamas chegava em casa. Em um ataque, os militares descobriram que 13 familiares haviam sido mortos, mas o alvo não estava no local.
Os entrevistados afirmam que prédios foram derrubados, casas incendiadas e civis desarmados foram atingidos enquanto aguardavam comida de comboios humanitários. Parte deles demonstra arrependimento; outros relatam as ações com orgulho.
Dirigido pelos israelenses Yuval Abraham e Rachel Szor, “Naza” apresenta entrevistas feitas em sacadas de prédios em Tel Aviv. As imagens e vozes dos militares foram alteradas digitalmente para preservar suas identidades. O documentário venceu o prêmio especial do júri no Festival de Veneza deste ano e recebeu aplausos durante 25 minutos.
As Forças de Defesa de Israel questionam o uso de fontes anônimas e negam que suas estratégias provoquem mortes indiscriminadas de civis. O primeiro-ministro Binyamin Netanyahu propôs uma lei que permitiria revogar a cidadania dos diretores. O ministro da Cultura, Miki Zohar, defendeu uma investigação sobre possível recebimento de informações do Hamas.
O conflito começou após os atentados de 7 de outubro de 2023, quando integrantes do Hamas mataram 1.200 israelenses e sequestraram 251 pessoas. Desde o início da guerra, mais de 74 mil palestinos foram mortos em Gaza, segundo os dados apresentados no filme.








