SÃO PAULO — Quatro exposições ocupam dois espaços da galeria Almeida & Dale na rua Fradique Coutinho, na zona oeste de São Paulo. As mostras reúnem trabalhos sobre intimidade, erotismo, matéria, tempo, memória e história da pintura.
Matéria e intimidade
Em “O Parado das Coisas”, Felipe Cohen reduz paisagens a elementos como horizontes, montanhas, nuvens e cachoeiras. Relevos, esculturas e objetos exploram o contraste entre o que se move e o que permanece imóvel. A escultura “Cachoeira”, feita de pedra e madeira, concentra essa investigação.
O título da exposição vem de uma passagem de “Grande Sertão: Veredas”, de Guimarães Rosa. Cohen afirma que a mostra trata da dificuldade de representar o movimento usando materiais duradouros, como pintura, escultura e relevo.
“Quarto de Máscaras”, de Maya Weishof, parte do ateliê da artista. O primeiro quadro do conjunto mostra uma mulher diante de uma pintura inacabada, enquanto um homem aponta uma câmera para o público. A partir dessa cena, a artista investiga o corpo no espaço de trabalho e os limites entre o íntimo e o público.
A exposição inclui cortinas, interiores e personagens que remetem a uma encenação teatral. O erotismo aparece como uma das chaves da pesquisa, mas Weishof o relaciona também ao ato de olhar e produzir imagens. As pinturas combinam recortes, partes de trabalhos antigos e perspectivas instáveis para criar situações próximas da lógica dos sonhos.
Tarsila e Atsushi Kaga
“Two Big Footers” aproxima obras de Tarsila do Amaral e do artista japonês Atsushi Kaga. A proposta surgiu depois que Kaga conheceu trabalhos de Tarsila durante uma visita a São Paulo. A mostra reúne obras da brasileira produzidas entre 1923 e 1970 e pinturas inéditas do japonês inspiradas nesse encontro.
Kaga relaciona a experiência dos dois artistas ao trabalho a partir de culturas não europeias diante de uma tradição pictórica europeia. Criado em Tóquio e formado também na Irlanda, ele incorporou às pinturas referências de videogames, mangás, cultura japonesa e cultura pop.
O artista descreve esse procedimento a partir da antropofagia: “É pegar qualquer coisa que você quiser, comer e digerir, e então transformar em algo seu”. Em uma das pinturas, uma paisagem brasileira pode aparecer associada a um universo de videogame.
Quatro décadas de Victor Arruda
“A Tragédia e o Escárnio”, de Victor Arruda, reúne trabalhos feitos ao longo de quatro décadas. As obras articulam lembranças pessoais, sexualidade, humor e morte, sem seguir uma narrativa única.
Aos 80 anos, Arruda descreve seu processo como um labirinto e um jogo de memórias, em que personagens podem reaparecer em pinturas diferentes. Sua linguagem inclui desenho, escrita, caricatura e imagens populares, com uma abordagem gráfica e grotesca.
O artista também usa o humor para tratar de temas difíceis. Ele afirma gostar quando as pessoas riem de seus trabalhos, inclusive quando o fazem de modo debochado. Para Arruda, o riso integra a forma como as imagens alcançam o espectador.








