SÃO PAULO — Instrumentos feitos com enceradeiras, buzinas e gravadores ajudaram Tom Zé a transformar ruídos urbanos em música. Aos 90 anos, o artista baiano revisita essa trajetória enquanto prepara uma exposição, shows, uma nova biografia e dois lançamentos: um disco da série “Relicário”, do Sesc, e um álbum de inéditas, antecipado pela faixa “Futuro Fruto”.
A exposição será realizada na Caixa Cultural São Paulo. Também estão previstos shows no Circo Voador, no Rio de Janeiro, no Sesc Pompeia, na capital paulista, e no Festival Saravá, em Florianópolis. O disco de “Relicário” terá a gravação de um show feito pelo cantor há 30 anos.
Sons inventados
De uma enceradeira quebrada de Neusa Martins, com quem é casado desde 1970, Tom Zé criou o “enceroscópio”. O músico também desenvolveu o “buzinório”, com buzinas, e o “hertzé”, espécie de “sampleador” pré-digital que reproduzia ruídos urbanos e outros sons por meio de um gravador e teclas.
Esses recursos aparecem em “Estudando o Samba”, de 1976, disco que chamou a atenção de David Byrne, e em “Nave Maria”, de 1984. Para o músico, objetos sem função musical podem ser transformados em instrumentos. “Assim como o pandeiro se transformou em música, a enceradeira, o ‘buzinório’ e os instrumentos de percussão podiam ser tratados de uma maneira que viravam instrumentos”, afirma.
A pesquisa sonora se combinou à música popular brasileira e à poesia concreta. Em “Poluição”, de “Todos os Olhos”, de 1973, a cidade aparece com características humanas. O mesmo ocorre em “A Briga do Edifício Itália com o Hilton Hotel”, de 1972. Tom Zé atribui essa influência a Adoniran Barbosa.
Tropicalismo e afastamento
Tom Zé participou de apresentações com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Bethânia em Salvador. Em 1965, o grupo levou a São Paulo o espetáculo “Arena Canta Bahia”. Ele também está na capa de “Tropicália ou Panis et Circencis”, de 1968, em que canta “Parque Industrial”.
Depois do exílio de Caetano e Gil, o músico ficou isolado. De 1969 a 1993, não tocou no Rio de Janeiro e passou a se apresentar no interior para universitários. Nesse período, lançou trabalhos hoje celebrados, como “Todos os Olhos”, “Estudando o Samba” e “Nave Maria”. Tom Zé diz que o afastamento ficou no passado: “Então está tudo resolvido, né?”
Ele também não se prende ao debate sobre sua classificação como tropicalista. “Mas não estou nem aí. Estou trabalhando a vida toda, como estou agora”, diz.
Da roça à vanguarda
Nascido em Irará, na Bahia, em 1936, Tom Zé cresceu em uma cidade sem luz elétrica e teve contato com a fala dos trabalhadores da roça e com os livros apresentados pela família materna. A nova biografia, “Um Vira-Lata na Via Láctea”, escrita por Christopher Dunn, aborda essas origens.
A formação musical ganhou novo rumo na Universidade Federal da Bahia, a partir de 1964, onde estudou com Hans-Joachim Koellreutter. O professor apresentou conceitos europeus de vanguarda, como a dodecafonia. Tom Zé conta que passou em primeiro lugar no vestibular, combinando o conhecimento de música popular com o estudo de harmonia.
“Sou essa miscigenação. Esse nordestino da roça que aprendeu dodecafonismo. Um dodecafonista sertanejo”, afirma.
A política aparece menos entre os compromissos atuais. Tom Zé foi preso duas vezes durante o período militar: uma pelo Departamento de Ordem Política e Social, o Dops, e outra pela polícia comum. Na segunda prisão, a causa foi uma ponta de cigarro de maconha encontrada em uma frasqueira, depois de seu apartamento ser revistado. Ele diz que experimentou, mas não gostou de fumar a erva.








