BRASÍLIA — “Pequenas Tragédias”, de Daniel Nolasco, e “Ana, en Passant”, de Fernanda Salgado, abriram neste fim de semana a competição nacional do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Os longas seguem caminhos diferentes: o primeiro combina humor, fabulação e elementos documentais para abordar a vida LGBTQIA+ em Catalão, no interior de Goiás; o segundo é uma animação sobre memória familiar e deslocamento.
Nolasco parte de experiências pessoais para retratar uma geração de pessoas LGBTQIA+ que deixou Catalão, morreu ou desapareceu da vida pública da cidade. O diretor voltou ao município em 2019, durante a produção de “Vento Seco”, depois de ter saído dali em 2010 para estudar cinema na Universidade Federal Fluminense, no Rio.
Durante quatro meses na cidade, ele percebeu mudanças nas relações e na cena LGBT que conhecera na juventude. Amigos tinham se mudado para Goiânia, Brasília e São Paulo, enquanto festas, parada e bares ligados a essa convivência praticamente haviam desaparecido.
O projeto começou como um documentário, mas a pesquisa levou o cineasta a adotar a fabulação. A decisão também buscou tratar da violência contra pessoas LGBT sem reproduzi-la de maneira didática. O filme combina erotismo, exposição dos corpos e humor, mesmo ao abordar morte e violência.
A relação do diretor com Catalão também aparece na produção. Depois do lançamento de “Vento Seco”, em 2020, uma cópia pirata circulou em grupos de WhatsApp da cidade. Para “Pequenas Tragédias”, a equipe chegou a apresentar o projeto sem associá-lo inicialmente ao nome de Nolasco, por receio da reação local.
Um conflito envolvendo o supermercado dos primos do diretor acabou incorporado ao filme. Nolasco havia trabalhado no local dos 13 aos 26 anos e já tinha gravado ali. Ao tentar retornar para uma nova filmagem, encontrou resistência.
Memória e animação
Exibido na noite anterior, “Ana, en Passant” acompanha Ana, jovem nascida em Paris e filha de brasileiros. Depois da morte da avó, ela viaja a Belo Horizonte e usa uma carta deixada pela familiar para investigar o próprio passado e se aproximar de Alice.
Fernanda Salgado começou a escrever a versão que deu origem ao longa em 2018, a partir de ideias que também remontam a um roteiro de 2012. O desenvolvimento, a captação e a produção duraram oito anos, e as filmagens começaram em 2022.
A obra usa principalmente rotoscopia, técnica que transforma imagens previamente filmadas em animação, mas também reúne outros procedimentos visuais. A produção foi realizada remotamente por mais de 60 animadores de diferentes estados brasileiros e de Portugal, entre 2023 e 2025.
Salgado afirmou que o filme só poderia existir como animação. O formato, segundo a diretora, permitiu representar os universos íntimos e as transformações das personagens.








