BRASÍLIA — A ideia de transformar uma privada em monstro surgiu de uma conversa entre Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, depois que os dois se conheceram no Festival de Roterdã, em 2015. O projeto virou “Privadas de Suas Vidas”, filme exibido na noite de quarta (16) na competição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
A trama acompanha Malu, interpretada por Martha Nowill, enquanto ela tenta enfrentar a morte de um dos filhos em um acidente com uma privada. A personagem tem constipação crônica e vive uma relação conflituosa com Gênesis, seu filho adolescente transgênero. No filme, vasos sanitários de um condomínio passam a matar moradores, em uma mistura de terror e comédia com sangue, fezes, vômito e pessoas engolidas pelo encanamento.
Da ideia ao roteiro
A dupla começou a reunir referências após discutir histórias em que objetos sem vida matam pessoas, a partir de um texto de Eduardo Valente sobre “O Elevador Assassino”. Também entraram no arquivo de ideias “The Mangler”, “Camisinha Assassina” e “Shivers”, de David Cronenberg.
“Não existe filme de privada assassina”, disse Vinagre, diretor de “Três Tigres Tristes”, durante um debate. Gewdner afirmou que o desafio era justamente trabalhar com um monstro imóvel: a pessoa precisa se aproximar dele, mas todos já vão ao banheiro, sem necessidade de atração.
O projeto chegou a Rodrigo Teixeira, cuja RT Features produziu “Me Chame pelo Seu Nome”, “A Bruxa”, “O Farol”, “Ad Astra” e “Ainda Estou Aqui”, vencedor do Oscar de filme internacional. Após recusar uma ideia de adaptação apresentada por Vinagre, Teixeira ouviu a proposta do filme sobre as privadas e, segundo o diretor, respondeu que queria realizá-la imediatamente.
Luto e caricatura
A entrada de Nowill acrescentou uma dimensão dramática à produção. Para a atriz, a constipação da personagem expressa fisicamente a dificuldade de liberar o luto e a dor pela perda do filho. Como preparação, os diretores enviaram a ela uma lista de 75 filmes de terror. Nowill diz ter medo do gênero e pediu indicações dos títulos menos assustadores.
Olivia Torres interpreta Kátika, uma personagem construída a partir de protagonistas de filmes de terror de décadas passadas, associadas pela atriz a uma combinação de sensualidade e ingenuidade. Torres criou o sotaque da personagem e passou cerca de três semanas falando como ela fora das filmagens. Também sugeriu uma cambalhota, para a qual precisou aprender o movimento.
Benjamin Damini interpreta Gênesis, personagem não-binário. Torres explicou que a comicidade podia ser mais caricatural quanto maior fosse a distância em relação ao drama central de Malu e Gênesis.
Cenários e circulação
A maior parte dos banheiros foi construída como cenário, com paredes removíveis e espaço sob as privadas para a circulação de câmeras, equipe e elenco. Partes dos apartamentos também foram montadas em estúdio. Outras cenas foram gravadas em prédios reais de São Paulo, principalmente na Bela Vista e na República.
Antes da sessão em Brasília, o longa, que circula internacionalmente como “Bowels of Hell”, passou pelo Festival de Roterdã, onde teve sua estreia mundial, e pelo Fantasia, em Montreal. No festival canadense, recebeu o prêmio da Associação Quebequense de Críticos de Cinema, escolhido por um júri entre 11 longas.
O filme é dirigido por Vinagre e Gewdner, com Nowill como protagonista e corroteirista. A produção parte da pergunta que guiou o projeto: se existia um filme sobre uma privada assassina.








