SÃO PAULO — A peça A História que se Repete estreia nesta sexta (9), no Sesc Ipiranga, em São Paulo, com uma releitura de Esperando Godot, de Samuel Beckett, voltada às tensões do trabalho precarizado e à perda de perspectivas.
Idealizada pelo ator Alex Bartelli, a montagem acompanha Gogô e Didi, interpretados por Rocco Pitanga e Robson Nunes. Os personagens vivem em um futuro distópico no qual tempo, memória e realidade se repetem continuamente. A dramaturgia é de Gabriela Mellão, que também aproximou a obra de Beckett do livro Na Linha: Folhetos Fabris, de Joseph Ponthus, e de O Processo, de Kafka.
Espera e exploração
A encenação dirigida artisticamente por Eduardo Figueiredo desloca a aridez do pós-guerra europeu para um cenário de precarização e descarte de corpos. Ao fundo do palco, há uma pilha discreta de corpos; a montagem também apresenta a manipulação de um boneco ao suicídio.
A escolha de dois protagonistas negros, segundo Figueiredo, acrescenta ao espetáculo discussões sobre reparação histórica e exploração do trabalho, sem abandonar a dimensão universal da condição humana. Gogô e Didi alternam aspereza, desilusão e afeto para preservar a humanidade em meio ao colapso.
A peça aborda ainda a corrosão provocada pelo trabalho precarizado e o discurso do empreendedorismo. Na cena “Linha de Produção”, Pitanga fica no fundo da plateia, enquanto Nunes permanece no palco e caixas circulam entre os espectadores ao som de uma canção. A proposta é fazer o público sentir a automação e o ritmo repetitivo de uma esteira fabril.
“Fomos convencidos de que a autoexploração desenfreada é virtude”, afirma Robson Nunes. Para o ator, a montagem questiona a ideia do empreendedor de si mesmo e a promessa de autonomia associada à uberização.
Afeto como resistência
Rocco Pitanga relaciona o tema à exaustão, à jornada de trabalho e à escala 6x1. Para ele, os personagens buscam trabalho em um futuro sem perspectiva material, mas mantêm vínculos que não podem ser comprados com dinheiro. A amizade e a fraternidade aparecem como formas de resistência à apatia.
A relação entre os protagonistas muda ao longo da peça. Pitanga vê Gogô como guardião da esperança de Didi, enquanto Didi carrega mais aspereza e encontra no companheiro uma possibilidade de pureza e ludismo. Durante os ensaios, os atores perceberam que as vozes dos personagens se cruzam entre momentos líricos e céticos.
Essa troca também aparece no arco dramático: em determinado momento, os papéis se cruzam e Pitanga canta. Para Gabriela Mellão, a divisão entre os dois é deliberadamente porosa.
O figurino é de Ronaldo Fraga, a luz é de Aline Santini, a cenografia é de Kleber Montanheiro e a direção musical, de Federico Puppi. Depois da temporada no Sesc Ipiranga, a produção pretende circular por editais, pelo interior e por outras praças do país.








