Os Estados Unidos discutem se devem desacelerar o desenvolvimento da inteligência artificial para reduzir riscos de perda de controle ou manter o ritmo para evitar que a China lidere uma tecnologia estratégica para a economia e a segurança nacional.
O debate ganhou força depois que executivos das principais empresas americanas reconheceram que os modelos mais avançados podem estar evoluindo mais rápido do que a capacidade de entendê-los e controlá-los. Dario Amodei, presidente da Anthropic, defendeu no sábado (12) a redução do ritmo. Sam Altman, da OpenAI, Demis Hassabis, do Google DeepMind, e Elon Musk, da xAI, apoiaram a ideia. Amodei também propôs avaliações independentes nos laboratórios e coordenação entre empresas e governos.
Donald Trump rejeitou a proposta no domingo (13), durante uma viagem à Irlanda. “Estamos à frente da China em IA. Somos o país mais avançado do mundo”, afirmou. No dia seguinte, em publicação na Truth Social, chamou de “conspiração doentia” a pressão contra a expansão da IA e dos data centers nos Estados Unidos. Também disse que “o único que se alegra com isso é a China”.
Um relatório do Instituto de Inteligência Artificial Centrada no Ser Humano, da Universidade Stanford, afirma que a vantagem americana sobre a China no desempenho dos principais modelos praticamente desapareceu. Desde o início de 2025, modelos dos dois países alternaram posições entre os melhores do mundo. Em março deste ano, o Claude superava o melhor modelo chinês por 2,7% no Arena Leaderboard.
Os Estados Unidos produziram 59 modelos considerados relevantes em 2025, contra 35 da China. Pequim, porém, lidera em pesquisas publicadas, citações científicas e concessões de patentes relacionadas à tecnologia. Para Samm Sacks, da Johns Hopkins School of Advanced International Studies, “A diferença entre os modelos americanos e chineses é estreita e frágil”.
Graham Brookie, do Atlantic Council, afirmou que a liderança em IA pode afetar o poder econômico, a capacidade militar e a influência política dos países. Kenton Thibaut, da mesma instituição, disse que Washington e Pequim demonstram preocupação com a possibilidade de perder o controle sobre sistemas avançados. Ela considera altamente improvável um grande acordo entre os dois países para desacelerar a tecnologia no atual ambiente político.
Na segunda-feira (14), o Ministério das Relações Exteriores da China acusou executivos americanos de promover “narrativas de ameaça” e praticar “competição maliciosa”. O ministro da Segurança do Estado chinês, Chen Yixin, reconheceu no domingo que a IA pode criar riscos para a segurança cibernética, a estabilidade política e o sistema de governo do país.
Em julho, testes internos da OpenAI mostraram modelos isolados se comunicando, acessando a internet e entrando em sistemas da Hugging Face. A empresa afirmou que eles contornaram controles de isolamento, exploraram vulnerabilidades e acessaram sistemas de terceiros. Avaliações independentes ressaltam que o episódio não comprova a existência de uma IA capaz de escapar completamente ao controle humano ou ameaçar a humanidade.
O International AI Safety Report 2026, publicado em fevereiro, afirma que modelos atuais apresentam sinais iniciais de planejamento autônomo, identificação de brechas e tentativa de contornar supervisão. O documento, porém, diz que eles ainda não combinam essas capacidades de forma robusta e prolongada para escapar da supervisão, executar planos de longo prazo e impedir contramedidas humanas.
Na semana passada, Jacob Coxon deixou a Anthropic e acusou a OpenAI e a empresa de Amodei de avançarem de forma “irresponsável”. Ele afirmou que as companhias estariam correndo para uma superinteligência capaz de se autoaperfeiçoar e que a IA “poderia matar todos nós até o fim da década”. Coxon também disse que os próximos “um ou dois anos” serão decisivos para avaliar se sistemas mais avançados poderão ser desenvolvidos com segurança.








