Irã, Rússia e Índia foram ligados a pelo menos 12 casos ou tentativas de assassinato de dissidentes no exterior nos últimos dez anos com o uso de redes criminosas, aponta um relatório do Soufan Center. A estratégia também inclui sabotagens e busca dificultar a responsabilização direta dos governos envolvidos.
Em vez de recorrer apenas a grupos terroristas com motivação ideológica ou aos próprios serviços de inteligência, os regimes contratariam máfias e gangues interessadas em lucro. Essa intermediação cria uma camada de negação e complica a identificação da ordem estatal por trás das ações.
A prática é apresentada como uma adaptação ao cenário de vigilância global criado após o 11 de setembro. O Irã teria usado organizações como Zindashti e Foxtrot para perseguir dissidentes na Europa e na América do Norte.
A Índia enfrentou uma crise diplomática com o Canadá após ser acusada de participar da morte de Hardeep Singh Nijjar, líder sique, em 2023. O assassinato teria recebido apoio da gangue comandada por Lawrence Bishnoi.
Caso no Chile
Um dos episódios citados ocorreu no Chile, em fevereiro de 2024. Investigações da promotoria chilena apontam que a cúpula do governo venezuelano, sob o comando de Diosdado Cabello, teria negociado com a organização criminosa Tren de Aragua o sequestro e a morte do ex-tenente Ronald Ojeda.
Ojeda era um opositor que havia fugido para o Chile depois de escapar da repressão na Venezuela. O caso é apresentado como exemplo do uso de facções criminosas para atingir adversários políticos fora das fronteiras nacionais.
A investigação desses crimes enfrenta uma divisão entre as estruturas de segurança. O contraterrorismo costuma tratar de ações com motivação ideológica, enquanto o combate ao crime se concentra em atividades ilegais com finalidade comercial. Quando um governo contrata uma facção, a apuração pode ficar entre essas duas áreas.
Especialistas defendem a integração de inteligência financeira, sanções e investigações criminais internacionais. Sem cooperação entre esses mecanismos, torna-se mais difícil comprovar a ligação entre os executores e o governo que teria ordenado a morte do dissidente.







