Um relatório do Soufan Center afirma que Irã, Rússia e Índia estiveram envolvidos em pelo menos 12 assassinatos ou tentativas realizados com o uso de organizações criminosas nos últimos dez anos. O estudo descreve uma mudança no emprego de redes criminosas por governos para assassinatos, sabotagens e operações encobertas de influência.
A autora, Jessica Davis, presidente da Insight Threat Intelligence e pesquisadora do Soufan Center, afirmou que Estados passaram a recorrer mais a organizações criminosas, em vez de apenas financiar ou orientar grupos terroristas. Para ela, a prática adapta operações clandestinas ao cenário de contraterrorismo posterior ao 11 de Setembro.
Casos ligados ao Irã, à Rússia e à Índia
O relatório atribui ao Irã pelo menos cinco assassinatos encomendados a redes criminosas desde 2011. Os alvos seriam dissidentes e críticos do regime islâmico na Europa e na América do Norte. Entre as organizações citadas estão Zindashti e Foxtrot.
A Zindashti é liderada pelo traficante iraniano Naji Ibrahim Sharifi-Zindashti, sancionado pelos Estados Unidos, pelo Reino Unido, pelo Canadá e pela União Europeia por recrutar criminosos para assassinar ou planejar a execução de dissidentes iranianos.
A Foxtrot, organização transnacional sediada na Suécia, e seu líder, Rawa Majid, foram sancionados pelos Estados Unidos em 2025. As medidas foram relacionadas a planos para atacar alvos judaicos e israelenses na Europa a mando do regime iraniano, incluindo uma tentativa frustrada contra a Embaixada de Israel em Estocolmo, em janeiro de 2024.
Sobre a Rússia, Davis disse que o uso de organizações criminosas amplia as operações clandestinas do país, sem substituir a atuação direta de seus serviços de inteligência.
A Índia esteve envolvida em pelo menos quatro casos desde 2023, segundo o relatório. Em 2024, a polícia do Canadá prendeu quatro homens suspeitos de participar do assassinato do líder separatista sique Hardeep Singh Nijjar, morto a tiros em junho de 2023, em Surrey, na Colúmbia Britânica.
As autoridades canadenses atribuíram o crime a agências de inteligência indianas, com participação do grupo do gângster Lawrence Bishnoi. Em julho deste ano, Bishnoi e associados foram indiciados nos Estados Unidos pela morte de Nijjar e por outros crimes. O Canadá classificou a gangue como grupo terrorista no ano passado, e os quatro presos aguardam julgamento.
Assassinato de opositor venezuelano no Chile
Outro caso citado envolve o regime de Nicolás Maduro e o assassinato do ex-tenente Ronald Ojeda no Chile, em fevereiro de 2024. Segundo a investigação, o Tren de Aragua teria sido contratado para sequestrar e matar o opositor.
O episódio começou com uma reunião, em dezembro de 2023, de ex-militares e opositores ao chavismo em Cúcuta, na Colômbia. O grupo planejava uma operação para derrubar Maduro, mas a contrainteligência militar venezuelana teria se infiltrado e se aliado ao Exército de Libertação Nacional e ao Tren de Aragua.
O ex-capitão Angelo Heredia foi capturado pelo ELN e entregue ao governo venezuelano. O líder estudantil Pablo Parada não chegou à reunião. Ojeda fugiu para o Chile, onde foi assassinado.
O promotor chileno Héctor Barros afirmou que Diosdado Cabello, ministro do Interior, Justiça e Paz da Venezuela, teria contratado o Tren de Aragua. A promotoria chilena pediu aos Estados Unidos que Maduro, preso em Nova York, seja ouvido sobre o caso.
Para Jessica Davis, a combinação entre objetivos geopolíticos, atividades criminosas e operações de inteligência dificulta as investigações. Ela defendeu a integração de inteligência sigilosa e financeira, sanções e investigações criminais.







