Estados Unidos e Irã acertaram um cessar-fogo em abril, mas continuaram a trocar ataques. Nesse período de menor intensidade, o governo iraniano retomou a produção de mísseis e ampliou atividades em um complexo nuclear, conforme relatos de autoridades e análises baseadas em imagens de satélite.
O Irã voltou a montar mísseis de propelente líquido e sólido usando componentes armazenados. Os primeiros precisam ser abastecidos pouco antes do lançamento; os segundos podem permanecer prontos para disparo. O complexo de mísseis de Khojir, no sudeste do país, é apontado como um dos locais de produção.
O governo iraniano também busca construir novos pontos subterrâneos de montagem para dificultar ataques dos Estados Unidos. Tal Inbar, analista sênior da Missile Defense Advocacy Alliance, afirmou que a ausência de bombardeios permite substituir estruturas danificadas e armazenar componentes comprados de outros países.
A reconstrução, porém, ocorre sob restrições. Ataques contra instalações industriais e o bloqueio naval imposto pelos Estados Unidos dificultam a importação de peças e insumos. Por isso, os novos mísseis estariam sendo montados principalmente com componentes já estocados, em quantidade menor que antes da guerra.
Atividade em complexo nuclear
O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais informou que a montanha Pickaxe, ou Kuh-e Kolang, registrou a maior movimentação já observada no local. A área abriga um complexo nuclear na região central do Irã, com dois complexos escavados em granito sólido a cerca de 100 metros de profundidade.
A análise de imagens aéreas e de satélite indicou uma mudança de uma fase de escavação ativa para outra de provável construção interna e reforço externo contínuo. O complexo fica próximo à instalação de enriquecimento de urânio de Natanz, atacada durante a guerra, e teria características que dificultariam sua destruição até mesmo com bombas bunker-buster, como a GBU-57.
Em agosto, o porta-voz do Exército iraniano, Mohammad Akraminia, disse que sistemas danificados haviam sido reconstruídos e que novos equipamentos foram importados. Segundo ele, os materiais vieram da indústria de defesa, do Exército e do exterior. Relatos também apontaram ajuda militar da Rússia e da China desde o início da guerra.
Advertências de Trump e Netanyahu
Na quarta-feira (9), durante uma convenção do Partido Republicano em Dallas, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que os americanos haviam percebido a atividade em Pickaxe e advertiu o Irã contra novas ações.
No dia seguinte, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, afirmou que o país tenta reconstruir sua capacidade de desenvolver armas nucleares. A possibilidade de o Irã obter esse tipo de armamento foi apresentada como motivação para a guerra iniciada em fevereiro. A redução do programa iraniano de mísseis também estava entre os objetivos da ofensiva de Estados Unidos e Israel.
O coronel da reserva e analista militar Paulo Roberto da Silva Gomes Filho afirmou que as informações disponíveis ainda não permitem determinar o estágio exato dos mísseis iranianos. Para ele, a capacidade do país se mostrou mais resistente do que os Estados Unidos esperavam, e o apoio externo, incluindo informações de inteligência e imagens de satélite atribuídas à Rússia, ajuda a explicar essa resistência.
Gomes Filho também disse que o Irã teria se preparado por longo período para o conflito, mantendo estoques e uma cadeia de comando descentralizada. Na avaliação dele, essa estrutura permite a continuidade das operações mesmo com a eliminação de lideranças e de meios de comunicação, comando e controle.







