VATICANO — Uma reunião internacional sobre a família debate por que menos jovens estão escolhendo o casamento na Igreja Católica e como a sociedade entende a relação entre sexualidade, procriação e matrimônio. O encontro ocorre a portas fechadas até 14 de outubro e reúne presidentes de conferências episcopais de todo o mundo.
A reunião marca o 10º aniversário da Amoris Laetitia, exortação apostólica publicada pelo Papa Francisco em 2016. O arcebispo Timothy Costelloe, presidente da Conferência Episcopal Australiana, afirmou que o vínculo entre atividade sexual e procriação, assim como sua importância no casamento cristão, deixou de ser amplamente compreendido ou aceito em seu país e possivelmente em outros.
Costelloe atribuiu parte da tensão à influência das redes sociais, do entretenimento, da cultura de pares e de influenciadores online. Esses ambientes, segundo ele, costumam valorizar realização pessoal, autonomia e felicidade imediata em vez de permanência, sacrifício e aliança. O arcebispo também citou experiências dolorosas vividas por jovens, como divórcios na família, violência doméstica, desigualdade entre homens e mulheres e falhas morais de líderes da Igreja.
Apesar disso, ele disse que muitos jovens ainda procuram relacionamentos duradouros e pediu apoio a quem deseja construir vínculos estáveis. Costelloe defendeu que paróquias e dioceses tornem mais visíveis os exemplos de casamentos e famílias estáveis, inclusive em programas de preparação matrimonial e escolas católicas. Também propôs que o ensinamento da Igreja sobre a intimidade conjugal seja apresentado como um ideal, e não apenas como um conjunto de regras.
Fatores econômicos e culturais
O cardeal Kevin Farrell, prefeito do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida, afirmou que as taxas de casamento estão caindo no mundo, tanto nas cerimônias civis quanto nas celebrações religiosas. Ele citou o divórcio, diferentes formas de coabitação e atitudes culturais predominantes entre os fatores relacionados à tendência.
Farrell também mencionou a preocupação de pais cristãos com filhos que enfrentam solidão, hesitam em assumir compromissos duradouros ou rejeitam o caminho seguido por seus pais. Os participantes pretendem analisar as causas do fenômeno e buscar sinais de esperança em pessoas e iniciativas que possam abrir novos caminhos para o casamento.
O bispo auxiliar Stephen Fernandes de Bombaim, na Índia, afirmou que a Igreja deveria começar perguntando o que os jovens procuram ao falar de amor, liberdade, dignidade e futuro, em vez de apenas questionar sua resistência ao casamento. Para ele, a cultura da imediatez e da escolha contínua contrasta com as exigências do matrimônio, como paciência, presença, perdão e perseverança.
Fernandes também apontou emprego, custos de moradia, migração e instabilidade social como obstáculos. Segundo ele, adiar o casamento pode refletir a falta de confiança na possibilidade de construir uma vida estável com outra pessoa. “Os jovens não deixaram de ter sede de amor”, afirmou. Para o bispo, a Igreja deve ouvir mais as experiências dessa geração e apresentar o casamento como uma vocação baseada em liberdade, fidelidade e doação mútua.






