Mais de 30 milhões de eleitores podem não comparecer ao primeiro turno de 2026 se a taxa de abstenção repetir o nível registrado na eleição anterior. Em uma disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), os especialistas ouvidos divergem sobre o efeito desse movimento nas candidaturas.
O peso de quem comparece
Para Alexsander Beilner, o número de faltosos, isoladamente, não permite apontar um beneficiário. “Quem decide efetivamente as eleições é quem comparece às urnas”, afirma. Na avaliação dele, a ausência não produz um favorecido direto, mas prejudica o próprio eleitor que deixa de participar da escolha.
Leandro Gabiati também considera que não é possível antecipar o impacto sobre um candidato específico. Para ele, o ponto central é identificar quem são os eleitores ausentes e onde estão concentrados. Uma mudança pequena na composição de quem comparece pode alterar a distribuição dos votos válidos em uma disputa equilibrada.
A mesma cautela é defendida por Rui São Pedro. As pesquisas trabalham com padrões históricos, mas não conseguem prever completamente a diferença entre a intenção declarada e a presença efetiva no dia da votação. Segundo ele, os indecisos também podem definir o resultado.
Hipóteses sobre Lula e Flávio
Uma das linhas de análise indica possível vantagem para Flávio Bolsonaro. O argumento é que eleitores de menor renda e escolaridade, grupos nos quais Lula apresenta desempenho superior ao do adversário, teriam maior propensão histórica a faltar. Idosos também aparecem entre os segmentos associados a taxas mais altas de não comparecimento.
Murilo Oliveira afirma que há uma tendência de esse perfil repetir o comportamento de ausência em 2026. Gustavo Alves acrescenta que uma base eleitoral mais mobilizada pode ganhar peso quando eleitores menos motivados deixam de votar.
André Marsiglia avalia que a abstenção concentrada nesses grupos poderia reduzir proporcionalmente a votação de Lula. Gabiati, porém, ressalta que essa possibilidade é uma hipótese, não uma previsão sobre o candidato beneficiado.
Outra interpretação aponta para possível vantagem de Lula. Alessandro Chiarottino afirma que a ausência pode estar concentrada no eleitorado de centro, incluindo pessoas que poderiam votar em Flávio Bolsonaro. Rui São Pedro considera que, se faltarem principalmente eleitores menos mobilizados, os segmentos mais engajados poderão representar uma parcela maior dos votos válidos.
O histórico recente
O TSE registrou pouco mais de 156,4 milhões de eleitores aptos no segundo turno de 2022. Na ocasião, 124,2 milhões compareceram e 32 milhões não votaram, com abstenção de 20,59%. No primeiro turno, a taxa havia sido de 20,95%.
Para 2026, quase 158,8 milhões de eleitores estão aptos a votar. Entre pessoas com 70 anos ou mais, grupo em que o voto é facultativo, a abstenção se aproximou de 60% na eleição anterior.
A distribuição territorial e demográfica dos faltosos será decisiva para a análise posterior. Uma taxa nacional de 20% pode produzir efeitos diferentes conforme os grupos em que a ausência estiver concentrada. Por isso, os especialistas apontam que a mobilização dos eleitores já convencidos pode ser tão importante quanto a conquista de novos votos.








