A cientista política Naiara Alcantara afirmou que o comportamento eleitoral do Norte não pode ser analisado como se a região formasse um bloco único. Para ela, Estados e municípios têm diferenças importantes, e a realidade de Belém não pode ser aplicada automaticamente a todo o território nortista.
Professora da Faculdade de Ciências Sociais e do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da UFPA (Universidade Federal do Pará), Alcantara pesquisa comportamento político e opinião pública. Em entrevista realizada neste sábado (19.set.2026), ela também avaliou que a região ainda aparece pouco nas pesquisas de opinião, em parte pela quantidade reduzida de empresas que fazem levantamentos locais.
“Nem sempre a presença de grupos diversos significa representatividade”, afirmou. Segundo a cientista política, o Norte reúne grupos étnicos e sociais variados, mas os partidos filtram os nomes antes que eles cheguem à escolha dos eleitores. Ela citou a participação de mulheres, especialmente líderes indígenas, na política do Pará e questionou se a presença de representantes diversos no poder garante a defesa dos interesses desses grupos.
Ambiente e comportamento eleitoral
A agenda ambiental e os efeitos das mudanças climáticas estão entre os temas específicos que atravessam o eleitorado nortista. Alcantara relacionou a exploração de petróleo na Margem Equatorial à tensão entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
A professora disse que uma pesquisa da UFPA sobre valores ambientais identificou preocupação com o aquecimento global e reconhecimento da importância da preservação. Essa posição aparece entre eleitores de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e de Flávio Bolsonaro (PL), mas, segundo ela, não necessariamente determina o voto.
“Quando a gente vai analisar o voto especificamente, a gente não verifica isso se reproduzindo”, declarou.
Lula, migração e redes sociais
A vantagem de Lula entre eleitores do Norte foi associada por Alcantara ao perfil socioeconômico da população e à presença de políticas públicas sociais. Ela afirmou que há forte presença de eleitores alinhados ao PT e ao presidente, embora o cenário varie entre os Estados.
A presença de imigrantes venezuelanos, sobretudo em Roraima, também foi discutida. De acordo com a cientista política, o tema pode influenciar o debate regional pela atuação de grupos ultraconservadores nas redes sociais. Ela afirmou que parte do eleitorado expressa intolerância contra migrantes e usa essas plataformas para disseminar esse conteúdo, mas disse que não é possível atribuir esse comportamento à maioria da população do Norte.
Para Alcantara, a convivência entre grupos diferentes pode contribuir para mudanças na cultura política e para uma sociedade mais tolerante.








