Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil “não vai tolerar” o modelo de negócios das bets e passou a defender o fim das plataformas de apostas e cassinos online. O presidente relaciona a atividade ao vício e ao endividamento de famílias.
O governo avalia editar uma medida provisória para proibir bets e cassinos online, incluindo o jogo do tigrinho. A possibilidade representa uma mudança em relação à política adotada inicialmente, que buscava regulamentar um mercado já existente.
Em 2023, o Executivo enviou ao Congresso uma proposta para disciplinar as apostas de quota fixa, modalidade autorizada por lei aprovada em 2018, durante o governo Michel Temer. No fim de 2023, Lula sancionou a Lei 14.790, que criou exigências de licença e tributação e estabeleceu regras contra lavagem de dinheiro, manipulação de resultados e jogo problemático.
Em entrevista à Rádio Metrópole, em outubro de 2024, Lula disse que o governo havia escolhido regular as apostas e admitiu a possibilidade de encerrá-las caso as regras não funcionassem: “Se a regulação der conta, tá resolvido o problema. Se não der conta, eu acabo”.
Mudança no discurso
Em maio de 2026, no programa Sem Censura, da TV Brasil, o presidente declarou que “proibiria todas”, mas ponderou que a decisão não dependia apenas dele. Em agosto, durante a campanha, afirmou que acabaria com as bets se isso dependesse de sua vontade.
Em setembro, ao abordar os efeitos sociais das apostas em entrevista a Cauê Moura e Load Comics, do podcast Desce a Letra Show, Lula comparou a expansão das bets à do crack. Na propaganda eleitoral, passou a classificar a atividade como “vício” e “doença” e declarou: “A gente vai acabar com as bets”.
Estimativa do Banco Central indica que cerca de 24 milhões de pessoas fizeram ao menos uma transferência por Pix para empresas de apostas e jogos online em 2024. Os repasses mensais ficaram entre R$ 18 bilhões e R$ 21 bilhões.
O órgão também estimou que, em agosto de 2024, cinco milhões de pessoas de famílias beneficiárias do Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões por Pix para essas empresas. Dados da Secretaria de Prêmios e Apostas indicam que 43,8 milhões de brasileiros haviam apostado em plataformas autorizadas até agosto de 2026, o equivalente a 27% da população adulta.
No primeiro semestre, as plataformas receberam R$ 88,5 bilhões em depósitos e pagaram R$ 68,3 bilhões em prêmios. Em julho, novas regras passaram a exigir alertas sobre dependência, risco de perda financeira e o fato de que apostas não são investimento. A regulamentação também restringiu anúncios com palpites ou análises capazes de induzir apostas e mensagens que prometam ganhos garantidos, estimulem o jogo excessivo ou pressionem o usuário.
As medidas reforçaram ainda o impedimento à participação de beneficiários do Bolsa Família e do BPC nas plataformas legais. Até então, a estratégia do governo era limitar a publicidade e o acesso de grupos vulneráveis, sem extinguir o mercado.
Flávio separa cassino e esporte
Flávio Bolsonaro critica a lei sancionada por Lula em dezembro de 2023 e afirma que votou contra a regulamentação. Em vídeo de campanha, disse que muitas pessoas gastam dinheiro que não têm ao acreditar na possibilidade de ganhar, o que pode resultar em endividamento.
O senador, porém, distingue os cassinos online das apostas em partidas reais. Embora diga ser contrário aos jogos em geral, considera que apostas em futebol, vôlei e tênis podem ser controladas. “O cassino online tem que acabar”, afirmou em uma transmissão com Tarcísio de Freitas e Ricardo Nunes.
Opinião dos eleitores
A rejeição às apostas online aparece em pesquisas realizadas antes da atual ofensiva eleitoral. Em novembro de 2024, 65% dos brasileiros disseram defender a proibição das apostas esportivas online. O índice foi de 68% entre mulheres e 61% entre homens.
Levantamento Atlas/Bloomberg divulgado nesta semana apontou que 75% defendem a proibição, ante 73% em abril. Na mesma pesquisa, 36% atribuíram ao governo Lula a principal responsabilidade pela disseminação das bets; 25% citaram o governo Jair Bolsonaro e 16,5%, o Congresso.
Para Leandro Consentino, cientista político e professor do Insper, o tema integra a disputa pelos eleitores que ainda não escolheram entre Lula e Flávio Bolsonaro. Ele avalia que as campanhas tentam atrair votos de outros candidatos e observa que a promessa de Lula pode ser vista por parte do eleitorado como demagógica, devido ao momento e ao tom eleitoral.









