A Polícia Federal investiga se parte dos recursos repassados pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, ao senador Flávio Bolsonaro foi usada para custear o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. O dinheiro teria passado pelo Havengate Development Fund LP, fundo offshore registrado no Texas.
Entre fevereiro e maio de 2025, Vorcaro pagou US$ 10,6 milhões (R$ 61 milhões) a Flávio em seis operações. Documentos indicam que pelo menos US$ 2 milhões foram transferidos pela Entre Investimentos e Participações ao Havengate. O senador afirma que os valores foram destinados integralmente à produção do filme Dark Horse, sobre a vida de Jair Bolsonaro.
“Não foi para o Eduardo Bolsonaro. Todos os recursos que foram aportados neste fundo, que é específico para a produção do filme, foram usados integralmente para fazer o filme”, disse Flávio em entrevista na quarta-feira (14/5). Na sexta-feira, ele voltou a negar que o dinheiro tivesse bancado despesas do irmão.
Eduardo Bolsonaro vive nos EUA desde fevereiro de 2025. Ele negou ter recebido recursos de Vorcaro e afirmou que apenas cedeu direitos de imagem para o filme. Depois, declarou ter investido R$ 350 mil no início da produção, valor que teria sido reembolsado após a entrada de investidores. Também disse que atuou como diretor executivo antes da criação da estrutura do fundo.
Registros do fundo
O Havengate tem como agente legal o escritório Law Offices of Paulo Calixto PLLC, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo nos EUA. O fundo aparece vinculado à Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial em Dallas, no Texas.
A empresa tem Paulo Calixto e o corretor de imóveis Altieris Santana como membros. Calixto é especialista em imigração e ajudou Eduardo em seu processo de visto. Flávio disse considerar natural que o advogado participasse da estrutura do fundo. Eduardo também defendeu a atuação de Calixto e citou sua experiência em gestão patrimonial e fundos de investimento.
A Entre Investimentos é liderada por Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro”, alvo da segunda fase da operação Compliance Zero. A investigação apura suspeitas de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro envolvendo o Banco Master e Vorcaro.
Em março deste ano, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da Entrepay Instituição de Pagamento, da Acqio Adquirência e da Octa Sociedade de Crédito Direto, integrantes do Conglomerado Entrepay, controlado pela Entre Investimentos. As autoridades investigam se Vorcaro seria um “dono oculto” da empresa, hipótese negada pela Entre.
Investigação internacional
A Procuradoria-Geral da República pediu, na última segunda-feira (11/5), a condenação de Eduardo por coação no curso de processo. A acusação afirma que ele articulou, a partir dos Estados Unidos, sanções contra o Brasil e autoridades brasileiras para influenciar o julgamento de Jair Bolsonaro por golpe de Estado.
Em 2025, Jair Bolsonaro enviou R$ 2 milhões a Eduardo nos Estados Unidos. Na ocasião, o Supremo Tribunal Federal considerou o repasse um indício da articulação entre pai e filho para interferir na atuação do Judiciário brasileiro.
A PF depende de cooperação com o FBI ou com instituições americanas para investigar fundos registrados nos Estados Unidos. O país não aderiu ao Common Reporting Standard, padrão internacional de troca automática de informações financeiras criado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico em 2014. O Brasil aderiu formalmente ao modelo em 2016.
Segundo o auditor fiscal Roberto Alvarez, fundos offshore podem ocultar a identidade dos beneficiários. Marcelo Lettieri, também auditor fiscal, afirmou que a ausência de compartilhamento automático de dados pelos Estados Unidos dificulta o rastreamento dos recursos. A origem do dinheiro e eventuais tributos relacionados à operação ainda são pontos sob investigação.








