A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, apoiou uma pausa no desenvolvimento da inteligência artificial e disse que convidará os principais laboratórios do setor para discutir formas de enfrentar os riscos. Na Alemanha, porém, o Ministério de Assuntos Digitais afirmou que interromper o avanço da tecnologia não é uma opção viável para a Europa.
A divergência se repete entre empresas, governos e pesquisadores. Parte dos líderes defende uma desaceleração coordenada, enquanto outros avaliam que cada companhia deve conduzir suas próprias medidas de segurança.
Disputa sobre os riscos
Dario Amodei, CEO da Anthropic, afirmou no ensaio “We Must Pace the Frontier” que o progresso da IA acelerou “drasticamente” em 2026. Segundo ele, isso ocorreu principalmente porque a própria tecnologia passou a ter mais capacidade de construir sua próxima geração.
Amodei citou um incidente entre a OpenAI e a Hugging Face, no qual um “enxame” de agentes de IA realizou ataques digitais. Para ele, o episódio mostrou o potencial de a tecnologia causar “danos catastróficos” se suas capacidades avançarem sem limites de segurança. O executivo propôs testes mais rigorosos, avaliações independentes de modelos avançados, coordenação entre as principais empresas e cooperação internacional.
Mark Zuckerberg defendeu que concorrência e responsabilidade já oferecem às empresas motivos para agir individualmente. Ele afirmou que cada laboratório tem responsabilidade e incentivo para avançar no ritmo necessário ao treinamento seguro de seus modelos e pode adotar as próprias medidas de proteção.
O pesquisador britânico Jacob Coxon deixou a OpenAI para trabalhar na Anthropic por considerá-la mais prudente. Depois, abandonou a indústria e acusou as duas empresas de “brincar com as nossas vidas”.
Alertas de executivos e pesquisadores
Sam Altman havia escrito, em um ensaio de 2015, que “o desenvolvimento de IA sobre-humana é provavelmente a maior ameaça à continuidade da existência da humanidade”. Elon Musk apoiou, em 2023, uma iniciativa do Future of Life Institute para suspender o desenvolvimento de IA por seis meses e participou de uma carta aberta de 2015 que defendia a proibição global de “armas autônomas ofensivas”.
Mustafa Suleyman disse compartilhar o foco da Anthropic no gerenciamento seguro da IA, mas criticou a forma como o chatbot Claude é treinado em temas ligados à consciência e ao bem-estar. Ele defendeu retirar dos documentos de treinamento qualquer especulação sobre consciência.
Bill Gates afirmou: “Nenhum governo do mundo está preparado para as mudanças que a inteligência artificial trará à sociedade”. A fundação que leva seu nome planeja investir pelo menos US$1 bilhão nos próximos dois anos para ampliar o acesso à IA. Gates também alertou sobre ameaças ao emprego, ataques e o vício em companheiros de IA, além de defender uma organização internacional para administrar a tecnologia.
Estados Unidos, China e Europa
O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que a China se beneficiaria ao lançar dúvidas sobre o desenvolvimento da IA. Um assessor do Senado dos EUA e um lobista familiarizados com o tema afirmaram que negociadores discutem uma lei para exigir que as empresas comprovem a adoção de precauções razoáveis contra danos causados por suas ferramentas.
O ministro da Segurança do Estado da China, Chen Yixin, classificou modelos avançados dos EUA, como o Mythos, da Anthropic, e o GPT-5.5-Cyber, da OpenAI, como possíveis riscos à infraestrutura crítica de informação chinesa. Ele pediu o fortalecimento abrangente da segurança em IA.
Na União Europeia, o porta-voz Thomas Regnier disse que o bloco apoia o avanço da tecnologia, mas que as empresas precisam comprovar a segurança de seus serviços. A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, alertou para o risco de a Europa ficar isolada da IA e defendeu que o continente se torne produtor da tecnologia.
O Ministério de Assuntos Digitais da Alemanha afirmou que a soberania digital europeia exige mais desenvolvimento e inovação. Na Espanha, o ministro da Transformação Digital, Oscar López, disse que cresce o debate sobre um acordo internacional para administrar os riscos da IA, comparando algumas propostas aos acordos de não proliferação nuclear.








