A historiadora, crítica de arte, professora e diretora de museus Aracy Amaral morreu nesta terça-feira (15), aos 96 anos. Sua trajetória combinou pesquisa histórica, atuação institucional, ensino e uma produção escrita marcada por perguntas sobre o papel da arte na sociedade.
Em 1984, Amaral publicou o livro "Arte para quê?", dedicado ao engajamento da produção artística brasileira com a vida social. A questão sintetizava uma preocupação presente em sua obra: discutir a função da arte em um país atravessado por problemas de sobrevivência e desigualdade.
Bienais e crítica de arte
Antes de concluir o curso de jornalismo pela PUC-SP, Amaral acompanhou a montagem da primeira Bienal de São Paulo, em 1951. Ela visitou os bastidores, fez entrevistas e, na segunda edição, trabalhou como monitora educativa. Ao longo dos anos, escreveu sobre todas as bienais paulistanas até a última década.
Em 1980, ao ser convidada para fazer a curadoria da Bienal Internacional de São Paulo, convocou críticos de arte da América Latina para discutir a orientação da mostra. A proposta era ampliar o foco latino-americano do evento. Diante das respostas que considerou insuficientes, deixou a direção da Bienal.
"Qual deve ser a função da crítica de arte em países que lutam contra o subdesenvolvimento, realidades nas quais a produção artística pode parecer totalmente supérflua diante dos problemas de sobrevivência que nos rodeiam a todos?", questionou na época.
A atuação de Amaral na imprensa incluiu o suplemento feminino de A Gazeta e o programa de rádio Vamos Falar de Arte?, da Jovem Pan.
Livros e instituições
A pesquisa sobre o modernismo resultou em obras como "As Artes Plásticas na Semana de 22" e "Blaise Cendrars no Brasil e os Modernistas", publicados em 1970. Em 1975, lançou "Tarsila: Sua Obra e Seu Tempo". Já "A Hispanidade em São Paulo: Da Casa Rural à Capela de Santo Antônio" saiu em 1981.
A partir de 1964, também passou a trabalhar em museus. Foi professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, ajudou a definir a atuação do MAC-USP e dirigiu a instituição entre 1982 e 1986. Antes disso, comandou a Pinacoteca de São Paulo entre 1975 e 1979, contribuindo para a reformulação de seu perfil.
Entre as exposições associadas à sua atuação estão "Tarsila: 50 Anos de Pintura", no MAC, em 1969; "Expo-Projeção 73", em 1973; "Projeto Construtivo Brasileiro na Arte", na Pinacoteca, em 1977; e "Pintura Como Meio", em 1983. Ela também participou de mostras e iniciativas do MAM Rio, do Itaú Cultural, do MAM São Paulo e da Bienal do Mercosul, em Porto Alegre.
Amaral confiou seu arquivo ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Sua produção inclui livros, críticas, curadorias e pesquisas que relacionaram artistas, obras e contextos sociais. Entre seus trabalhos finais de investigação esteve uma reflexão sobre os zoólitos, peças de pedra produzidas pelos povos sambaquieiros entre 7 mil e mil anos atrás.
A família era formada por Nadya e Aguinaldo Amaral, seus pais; Ana Maria, Suzana e Antonio Henrique, seus irmãos; André, seu filho; e Maria Luiza e Gabriela, suas netas. Sua obra permanece como registro de uma defesa constante da pesquisa, da educação e de uma arte ligada ao próprio tempo.








