A correspondência de Euclides da Cunha registra negociações de votos para a Academia Brasileira de Letras, conflitos familiares e os riscos enfrentados durante uma viagem à região amazônica do Purus. O conjunto também revela preocupações do escritor com a saúde, o trabalho e a instabilidade da República.
Uma carta enviada em dezembro de 1906 pelo fazendeiro Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha ao filho menciona a forma como Euclides tratava a mulher e os filhos. O pai também criticava a rotina do escritor e sugeria que ele permanecesse mais tempo em casa. O conteúdo fazia referência indireta à traição de Anna, mulher de Euclides, com Dilermando de Assis.
“Retirei-me daí apressadamente (...) por ver a forma estranha com que tratas tua mulher e filhos”, escreveu Manoel Rodrigues Pimenta da Cunha. O pesquisador Leopoldo M. Bernucci afirma que as cartas do pai são as únicas referências praticamente existentes ao conflito que terminou com a morte de Euclides, assassinado por Dilermando em uma troca de tiros.
Viagem ao Purus
O projeto digital Diálogo Epistolar de Euclides da Cunha, disponibilizado pela Editora Unesp, reúne 1.608 cartas enviadas e recebidas pelo escritor entre 1883 e 1909. Desse total, 918 ainda não haviam sido publicadas em livro. O trabalho foi iniciado em 2009 por Leopoldo M. Bernucci e Felipe Pereira Rissato.
As mensagens tratam principalmente de literatura, mas também abordam ciência, política, história e questões pessoais. Durante a viagem ao Purus, Euclides teve conflitos com Pedro Alejandro Buenaño, comandante da Comisión Peruana. As cartas relatam desacordos entre as comissões brasileira e peruana, além de denúncias sobre peruanos mantidos sob tutela de brasileiros em seringais.
Também há registros de uma revolta de soldados deixados à beira do rio e de mortes provocadas por doenças tropicais, como malária. Mensagens sigilosas trocadas com o Barão do Rio Branco continham informações cartográficas usadas nas discussões que resultaram na anexação do atual estado do Acre, em 1903.
Trabalho e vida intelectual
Euclides se queixava da sobrecarga e da burocracia associadas ao trabalho de engenheiro nômade. As cartas ainda mostram diferentes facetas do escritor, que podia ser ponderado e cuidadoso, mas também expor emoções e recorrer ao humor.
Com Plínio Barreto, usou um jogo de palavras envolvendo Paris e Purus. As mensagens para Vicente de Carvalho revelam a superstição dos dois, enquanto uma carta a Coelho Neto menciona a visão recorrente de uma mulher vestida de branco. Euclides também criticou a reforma ortográfica de 1907 em mensagem a Domício da Gama.
As disputas na Academia Brasileira de Letras aparecem em cartas nas quais Euclides e seus aliados negociavam votos, inclusive com Machado de Assis. Alfredo Pujol brincou com o novo estado “imortal” do escritor após sua entrada na academia, em 1903.
O Arquivo do Estado de São Paulo ainda guarda cartas de Euclides do período em que trabalhou como engenheiro da Secretaria de Obras Públicas. O material já catalogado poderia formar sete volumes impressos. Por enquanto, a Editora Unesp planeja um volume sobre o reconhecimento do Alto Purus.









