Siri Hustvedt transforma a memória do casamento com Paul Auster em uma narrativa sobre identidade, perda e convivência. Em “Histórias de Fantasma: Memórias”, ela alterna o período posterior à morte do escritor com lembranças da relação iniciada em 1981.
A obra acompanha a doença de Auster, desde a descoberta do câncer de pulmão até a morte, aos 77 anos, em 2024. Hustvedt, hoje com 71 anos, também descreve a desorganização provocada pelo luto e a dificuldade de reconhecer a passagem do tempo.
A escritora aproxima sua experiência de personagens criados por Auster, como Daniel Quinn, de “A Trilogia de Nova York”, e do próprio autor em “A Invenção da Solidão”. Para Hustvedt, a convivência prolongada fez com que ideias, frases e sensações dos dois perdessem fronteiras individuais.
“Pessoas que viveram juntas por muito tempo e que se amaram criam uma terceira coisa”, afirma Hustvedt. O livro incorpora essa noção ao misturar as vozes do casal, além de reunir cartas escritas por Auster para o neto.
Depois da morte, Hustvedt relata ter sentido o cheiro da cigarrilha que o marido fumava e a presença dele no quarto. O fantasma mencionado no título também remete ao desejo que Auster havia manifestado de se tornar um fantasma após morrer.
Câncer, escolhas e acaso
A autora questiona se o cigarro teve relação com a doença e se uma tragédia familiar poderia ter afetado o sistema imunológico de Auster. Daniel, filho do escritor com Lydia Davis, enfrentava problemas com drogas. Ruby, filha de Daniel, morreu em 2021, aos dez meses, após ingerir heroína e fentanil. Meses depois, Daniel morreu de overdose.
Hustvedt escreve que nunca saberá qual foi a influência desses acontecimentos no câncer de Auster. Ainda assim, evita transformar a doença em motivo para culpa ou arrependimento.
“Eu não acho que seja útil pensar assim”, diz a escritora ao considerar a possibilidade de que Auster tivesse evitado o câncer se tivesse parado de fumar antes. Para ela, o passado não pode ser refeito sem produzir amargura.
No fim do livro, Hustvedt afirma que a dor do luto continua, mas se transforma. A mudança, segundo ela, abre espaço para que uma nova história comece depois da perda.








