A poucos dias de se apresentar à prisão federal, Elizabeth Holmes recebeu em casa um dos diretores de You Can See Everything. A ex-empresária convidou Nathan Fielder a morar com sua família para tentar convencê-lo — e talvez também o público — de que havia sido injustiçada.
O documentário, dirigido por Fielder e Lance Oppenheim, começa um mês antes do cumprimento da pena de 11 anos. A produção foi filmada em segredo e acompanha a tentativa de Fielder de entender se Holmes age com sinceridade ou procura manipulá-lo. Exibido no Festival de Cinema de Telluride, no Colorado, o filme estreia nos cinemas americanos em 16 de outubro. Ainda não há data confirmada para o lançamento no Brasil.
A Theranos surgiu a partir da promessa feita por Holmes aos 19 anos: realizar centenas de exames usando apenas uma gota de sangue. O projeto previa um aparelho miniaturizado capaz de diagnosticar até 200 doenças, mas a empresa utilizava equipamentos convencionais de outras companhias. Como essas máquinas precisavam de mais sangue, funcionários diluíam as amostras, comprometendo os resultados.
A ascensão da Theranos
Entre 2013 e 2015, Holmes apareceu nas capas da Inc. e da Fortune e foi comparada ao fundador da Apple, Steve Jobs. Ela adotou roupas pretas de gola alta e passou a usar uma voz mais grave em apresentações. Com Sunny Balwani, parceiro de negócios e ex-namorado, atraiu investidores para uma companhia que chegou a ser avaliada em US$ 9 bilhões.
Rupert Murdoch investiu cerca de US$ 125 milhões. Holmes foi apresentada como uma supercientista e se tornou a mais jovem mulher bilionária self-made do Vale do Silício. O conselho da Theranos reunia ex-secretários de governo, ex-senadores e nomes como George Shultz, Jim Mattis e Henry Kissinger.
Em uma visita à empresa, o então vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, conheceu um laboratório preparado especialmente para a ocasião. Biden comentou: “Este é, de certa forma, o laboratório do futuro”.
Denúncias e investigação
Os problemas vieram a público em 2015, quando o jornalista John Carreyrou investigou a Theranos após ser alertado por um patologista. Ex-funcionários também tentaram denunciar irregularidades. Adam Rosendorff, ex-diretor do laboratório, tornou-se testemunha-chave do julgamento. Erika Cheung afirmou que os resultados pioravam enquanto o dinheiro entrava.
Os exames apresentavam imprecisões em testes para hepatite C, tireoide e doenças relacionadas ao câncer. Cheung e Tyler Shultz disseram ter sido ameaçados com processos caso revelassem os problemas. Tyler, neto de George Shultz, chegou a comprar um celular descartável para falar com Carreyrou.
A empresa perdeu valor, foi à falência e Holmes acabou condenada por fraude. Ao ouvir a sentença, ela assumiu responsabilidade pela Theranos, mas não admitiu crime. O documentário explora justamente a distância entre a imagem pública construída pela empresária e os relatos de pessoas que questionaram a tecnologia e seus efeitos em pacientes reais.








