SÃO PAULO — O musical “Feliz Ano Velho” estreia neste sábado (19) no Teatro Sabesp Frei Caneca, na região central da capital paulista, com uma encenação que abandona a ordem cronológica e combina dança, música, humor e projeções.
A montagem parte do livro de Marcelo Rubens Paiva, lançado em 1982, e acompanha a transformação do escritor após o acidente que o deixou tetraplégico aos 20 anos. O episódio ocorreu em 1979, quando ele mergulhou em um açude de um sítio em Campinas, bateu a cabeça e fraturou a quinta vértebra cervical.
Memória em movimento
No palco, a internação do protagonista aparece logo no início. Sedado, ele atravessa uma sequência de devaneios, enquanto a narrativa alterna momentos do passado e do futuro. Hugo Bonèmer interpreta Paiva; Bruno Garcia vive o escritor em uma fase mais velha e também representa Rubens Paiva, pai de Marcelo, assassinado pela ditadura militar em 1971.
Câmeras registram partes da ação e reproduzem as imagens em telões. As escadas são o principal elemento cenográfico: podem sugerir jaulas e obstáculos ou servir como plataformas para os saltos do elenco.
O repertório inclui “Geração Coca-Cola”, do Legião Urbana, “O Tempo Não Para”, de Cazuza e Arnaldo Brandão, e “Vida Louca Vida”, de Lobão e Bernardo Vilhena. Para o diretor Gustavo Barchilon, as músicas não ficam restritas aos anos 1980. “Por mais que tenham sido lançadas nessa época, são músicas atemporais.”
Acidente, humor e reabilitação
O livro que inspira o espetáculo narra a experiência de Paiva sem se limitar às consequências do acidente. A obra mistura sexo, drogas, gírias e palavrões em uma linguagem direta e coloquial. Desde o lançamento, a estimativa é que tenha vendido mais de 1 milhão de exemplares.
A adaptação também aborda o processo de reabilitação e a adaptação à cadeira de rodas. A revolta inicial do personagem gradualmente dá lugar à tentativa de se reinventar pela literatura. “Andar, afinal, não é a única forma de caminhar”, afirma um dos personagens.
A escolha de atores sem deficiência para os papéis principais recebeu críticas de artistas com deficiência. Luciano Mallmann, cadeirante, e Sabrina Korgut, que tem baixa mobilidade em uma das mãos, integram o elenco em papéis coadjuvantes.
Heloísa Périssé interpreta Eunice Paiva, mãe de Marcelo, que procurou o marido depois que ele foi levado de casa por agentes do regime militar. A personagem também acompanha as dúvidas do filho sobre a possibilidade de voltar a andar.
A montagem recupera ainda a passagem do escritor por uma juventude marcada por rebeldia, prazer e desejo de liberdade. Para Barchilon, a proposta é “uma nova forma de fazer teatro musical”.








