VENEZA — Exibido no último dia do Festival de Veneza, Retorno a Buenos Aires acompanha um médico que volta à capital argentina para testemunhar no julgamento dos militares responsáveis por seu sequestro, tortura e escravização durante a ditadura argentina.
Mariano Guerra, interpretado por Adriano Giannini, deixou o país há 33 anos e refez a vida na Itália. Para sobreviver, porém, colaborou com o regime: delatou conhecidos e trabalhou como enfermeiro em um centro de tortura. Ele reanimava prisioneiros torturados e aplicava sedativos em pessoas levadas para os chamados voos da morte.
Antes do julgamento, Mariano é colocado em um hotel com outras vítimas. Nesse período, reencontra sobreviventes, retorna a locais ligados à própria história e revive episódios que tentou esquecer por décadas. A volta também o aproxima da filha de uma ex-companheira, que descobriu recentemente que os pais foram mortos pela ditadura e tenta entender o que aconteceu com a mãe.
Culpa e silêncio
O diretor Marco Bechis foi sequestrado pela polícia argentina em 1977 e levado a um centro clandestino de detenção. Embora não conte a própria história no filme, usa a trama para examinar como sobreviventes das atrocidades do regime convivem com o passado.
O julgamento não é tratado como thriller, e Mariano não aparece como herói. Os encontros, as esperas, os depoimentos e os silêncios são marcados por culpa e remorso. Adriano Giannini constrói um personagem desconfortável, que fala pouco e evita olhar para trás, mas precisa reviver o que passou grande parte da vida tentando esquecer.
A produção é uma coprodução brasileira e italiana e tem Paula Cohen no elenco, no papel da juíza Desideria Losada. O filme reúne principalmente atores argentinos e italianos e cruza as duas cinematografias.
Sem acrescentar imagens de horror à história já abordada pelo cinema argentino, Retorno a Buenos Aires adota uma abordagem contida e não propõe reconciliações nem o fechamento das feridas do passado.








