O diretor Paul Schrader apresentou em Veneza, fora da competição principal, “The Basics of Philosophy”, filme sobre repressão sexual, culpa e a dificuldade de mudar. A história acompanha um professor universitário de filosofia, especialista em Espinoza, interpretado por Jack Huston.
O personagem mantém um relacionamento morno com uma colega de trabalho, mãe de um adolescente. Apesar dos problemas, os dois continuam juntos e chegam a planejar o casamento. Em sala de aula, o professor discute se o ser humano consegue mudar ou se suas ações acabam determinadas pela natureza.
A questão também se relaciona à vida pessoal do protagonista, que deseja alterar a própria sexualidade e não consegue se aceitar. O personagem carrega ainda a culpa por ter abusado sexualmente de um adolescente, filho de um funcionário de seu pai. O jovem recebeu apoio financeiro para estudar, mas o professor continua marcado pelo episódio.
Schrader constrói o filme com orçamento limitado, composição austera e elementos associados a produções B. O longa alterna um tema grave com situações caricatas e momentos de vulgaridade. Essa combinação, segundo a proposta do diretor, evita que a obra se torne solene demais ou trate a si mesma com excesso de seriedade.
A narrativa não se concentra em definir se o protagonista é um monstro ou se merece perdão. O foco está na tensão mental do personagem e na tentativa de buscar algum tipo de redenção por meio da filosofia. A cena final, ambientada em um altar, retoma a dúvida sobre a capacidade humana de mudar.
O filme é apontado como mais um trabalho relevante de Schrader, conhecido pelo roteiro de “Taxi Driver”, dirigido por Martin Scorsese. Scorsese participa de “The Basics of Philosophy” como produtor-executivo.
Outros destaques
Na competição, o destaque foi “A Place to Heal”, do francês Cédric Kahn. O filme acompanha adolescentes de 15 a 18 anos atendidos pelo sistema público de tratamento psiquiátrico da França.
A produção mostra jovens com histórias diversas, frequentemente ligadas a lares disfuncionais e a abusos sexuais na infância. Entre eles estão uma garota que enfrenta anorexia e bulimia após um trauma; uma adolescente negra que lida com o racismo e com a hostilidade familiar depois de se assumir lésbica; e uma interna mais nova que se envolve em conflitos e tem dificuldade para reconhecer os próprios problemas.
Com encenação realista e traços documentais, o filme foi desenvolvido a partir de pesquisas no sistema psiquiátrico francês. A obra destaca a importância do atendimento médico e do convívio entre adolescentes que enfrentam dificuldades semelhantes, especialmente entre os de baixa renda e os que vivem em ambientes familiares hostis.
A produção também faz referência a “Um Estranho no Ninho”, de Milos Forman, de 1975. Para Kahn, porém, a estrutura do internato não funciona como símbolo do mundo exterior. O filme adota uma abordagem direta e, apesar da força dos personagens e da realização, permanece dentro dos limites de sua proposta.









