SÃO PAULO — A escritora e ilustradora alemã Nora Krug defende que o passado continue sendo discutido, mesmo quando os acontecimentos parecem distantes. Para ela, esse debate é necessário enquanto houver antissemitismo, racismo ou agressões contra pessoas que pensem ou sintam de forma diferente.
Radicada nos Estados Unidos, Krug está em São Paulo nesta semana para participar da quinta edição do Festival Literário do Museu Judaico. Nesta quinta-feira, ela participa de uma mesa sobre passados traumáticos ao lado do quadrinista Marcelo D’Salete.
Krug investigou sozinha, há mais de uma década, a trajetória de parentes antes e durante a Segunda Guerra Mundial. A experiência deu origem a Heimat, livro de memórias ilustrado publicado no Brasil pela Quadrinhos na Cia., em 2019.
A obra inclui a redação escolar de um tio, de 1939, que comparava judeus a cogumelos venenosos. Krug também reproduz uma análise feita por ela e colegas sobre um discurso de Adolf Hitler. “Aprendemos que nossa língua, um dia, havia sido considerada poética, mas agora era potencialmente perigosa”, diz um dos trechos.
Memória e responsabilidade coletiva
A autora afirma que documentos sobre a filiação de familiares ao Partido Nazista podem ser um ponto de partida, mas não bastam para compreender quem eles eram. Ao encontrar um arquivo sobre o avô, Krug diz ter descoberto mais sobre a personalidade dele do que apenas o fato de ter sido membro do partido.
Em sua obra mais recente, Diários da Guerra: Ucrânia e Rússia em Dois Relatos Gráficos, publicada pela Quadrinhos na Cia. no ano passado, ela acompanha durante um ano as narrativas de personagens reais, cada um de um lado do conflito.
Krug deixou a Alemanha há 23 anos para estudar. Ela afirma que não sabe se teria pesquisado o passado familiar caso não tivesse saído do país. Em Nova York, onde conheceu o marido, também teve contato com uma cidade que recebeu muitos judeus depois da guerra.
A autora critica a falta de conversas sobre responsabilidade e sentimentos após uma visita escolar a Auschwitz. Para ela, a memória não deve depender apenas de indivíduos, pais ou professores, mas precisa ser também um esforço coletivo ancorado no governo.
“Não há motivo para deixarmos de falar sobre ele”, afirma Krug sobre o antissemitismo, que considera presente desde a Idade Média.








