Aos 65 anos, Mauricio Stycer publicou “Rotas de Fuga”, livro em que reconstrói as trajetórias de seu pai, Boruch, de seu tio Abraham e de seu avô materno, Jacob. Os três enfrentaram guerras, regimes autoritários e o antissemitismo na primeira metade do século 20.
A decisão de escrever veio depois da morte de Boruch, em 2020, aos 103 anos. O pai evitava falar sobre o passado, e Stycer diz que, antes disso, tinha “um certo pudor” em abordar a história familiar. Com a perda, sentiu-se mais à vontade para compreender os silêncios do pai.
As histórias da família
Jacob nasceu no Império Russo e foi recrutado para o exército do czar na Primeira Guerra Mundial. Ferido nos Cárpatos, fugiu para casa e passou a ser tratado como desertor. Durante um ano, circulou pela Ucrânia entre hospitais e prisões militares.
Stycer usou como base um caderno vermelho escrito em iídiche. O manuscrito foi narrado por Jacob e pode conter liberdades poéticas. O autor afirma que não buscou verdades absolutas, mas registrou o que suas fontes permitiam.
Abraham, irmão de Boruch, era ligado ao Bund, movimento operário e socialista judeu. Detido pelos soviéticos, passou por prisões e interrogatórios antes de fugir para os Estados Unidos. Em Nova York, entregou a Stycer um livro com um capítulo sobre seu encontro com um líder do Bund na prisão. “Ele me deu uma missão”, afirma o jornalista.
A terceira história é a de Boruch, que deixou a Polônia e passou por Vilnius, Kaunas, Moscou, Vladivostok, Kobe e Xangai. A pesquisa em livros, arquivos e listas de vistos japoneses confirmou que a fuga pela Ásia, contada pelo pai, havia acontecido. “Não é possível…”, disse Stycer ao encontrar informações sobre o percurso.
Pesquisa e memória
O capítulo sobre Boruch também se baseou em uma entrevista gravada na década de 1990 por Daniel, irmão de Stycer. O jornalista acrescentou observações quando o relato do pai divergia dos documentos.
Depois de Xangai, Boruch passou um período nos Estados Unidos com Abraham, trabalhou com o comércio de pedras preciosas e viajou ao Rio de Janeiro para buscar clientes. Hospedado na casa de Sonia, filha de Jacob, casou-se com ela em 1960.
Stycer diz que um dos maiores desafios foi deixar de lado o princípio jornalístico de não falar de si. “Tive de assumir que queria falar sobre mim e sobre os meus parentes.”








