RIO — O jornalista Thallys Braga narra, em seu primeiro livro, “Filho”, a infância marcada por dificuldades financeiras, violência familiar, homofobia e pela morte da mãe, Luciana. Publicada pela Companhia das Letras, a obra também aborda o deslocamento do autor após a ascensão social.
Luciana trabalhou como empregada doméstica e babá na Barra da Tijuca e no Recreio. Para manter o filho na escola, chegou a dormir na calçada e contraiu dívidas para que ele estudasse para o vestibular. Ela morreu aos 41 anos, depois de enfrentar dores crônicas, obesidade e dificuldades financeiras.
A relação entre mãe e filho era marcada por afeto e agressões. Luciana repetia sete toques na parede do quarto de Thallys, no ritmo de “eu - te - amo”, mas também batia nele com cinto, chinelo e vara de goiabeira. Segundo o autor, ela reagiu mal ao descobrir, quando ele tinha 13 anos, que ele era gay. Discos e pôsteres de divas pop foram queimados no quintal da casa, e Thallys passou por um período de isolamento.
Ascensão e deslocamento
Thallys se formou em uma universidade pública, trabalhou como repórter da revista Piauí, publicou o livro, viajou ao exterior e passou a frequentar a zona sul carioca. No entanto, afirma continuar se enxergando como o “viado pobre de Inhoaíba”, com medo de perder o conforto material e retornar às origens.
O autor reconhece que “Filho” pode ser lido como uma obra de trânsfuga de classe. Ele cita a influência de Édouard Louis e Annie Ernaux e define o livro como “o registro político de um tempo, de um lugar e de um certo tipo de gente brasileira”. Também descreve sua forma de narrar como ligada às fofocas ouvidas no portão de casa, na saída da igreja e na escola.
O pai de Thallys, Marcelo, era ausente e foi assassinado a tiros quando o filho tinha dez anos. Luciana e Marcelo são as únicas pessoas nomeadas no livro; os demais aparecem por iniciais. O autor afirma que tomou essa decisão para evitar que fossem identificados e tivessem suas vidas públicas afetadas.
O pacto para que os avós maternos não lessem a obra continua. Thallys diz que não se arrepende do que escreveu e que narrar um trauma não equivale a maltratar uma criança.








