A receita dos shows se tornou essencial para bandas médias e pequenas, que perderam a renda antes obtida com a venda de CDs e vinis. Mesmo com público fiel, esses artistas recebem pouco ou nada das plataformas quando não acumulam milhões de reproduções.
O Spotify informa que uma faixa precisa atingir 1.000 reproduções em um ano para começar a ser monetizada. Canções abaixo desse limite geram, em média, US$ 0,03 por mês em royalties, o equivalente a 16 centavos de real. Quando há remuneração, o valor ainda é dividido entre distribuidora, gravadora e outros agentes.
Dados de 2025 da plataforma mostram que os 80 artistas mais bem pagos receberam mais de US$ 10 milhões cada em direitos autorais no ano passado. No mesmo período, o Spotify diz ter repassado mais de US$ 11 bilhões à indústria musical, com mais de 50% destinados a artistas e selos independentes.
A distância entre audiência e renda
O jornalista e pesquisador Luiz Cesar Pimentel afirma, no livro “A Grande Trapaça Digital”, que músicos que vendiam 5.000 discos conseguiam financiar períodos sem shows, usados para criar e gravar. Com a música sob demanda, essa reserva deixou de existir para artistas que não estão no topo das paradas.
Rodrigo Lima, fundador e vocalista do Dead Fish, diz que a banda precisa manter uma sequência contínua de apresentações. “Eu não posso mais parar de fazer show, tenho que fazer turnê atrás de turnê”, afirma. O grupo tem 35 anos de trajetória, nove álbuns de estúdio e ainda lota casas para 3.000 pessoas.
Até meados dos anos 2000, segundo Lima, o Dead Fish conseguia interromper os shows, voltar a Vitória e gravar um disco. A renda também permitia que ele lançasse trabalhos da banda e de outros grupos de punk e hardcore por um selo próprio. Hoje, apesar de ter reproduções no streaming “acima do que eu esperava”, esse modelo não seria viável. A música “Queda Livre” soma quase 11 milhões de plays no Spotify.
Pimentel diz que artistas com 100, 300 ou 500 mil ouvintes mensais ainda podem não transformar essa audiência em renda suficiente para sustentar uma carreira. Para os grandes nomes, a popularidade funciona como proteção contra mudanças nas playlists e nos algoritmos.
Alternativas fora do streaming
A dupla paulistana Test, formada há 15 anos, não está no Spotify nem no Tidal. A banda disponibiliza seu trabalho no Bandcamp e no YouTube, além de vender vinis e fitas cassete nos shows.
“É uma atitude política você não estar lá [no Spotify], inventar as suas próprias maneiras de fazer coisas”, diz João Kombi, vocalista e guitarrista. Para ele, o Bandcamp oferece melhor remuneração: o site desconta uma comissão de 10% a 15% sobre cada álbum vendido e, uma vez por mês, abre mão dessa parcela.
Kombi também afirma que o número de plays não representa necessariamente o público que compra ingressos. Uma música pode acumular reproduções por aparecer em uma playlist, sem que os ouvintes tenham escolhido escutar o disco.
O disco fragmentado
Pimentel avalia que os artistas pequenos ganharam a possibilidade de publicar sem a autorização de gravadoras, rádios, lojas ou jornalistas, mas passaram a disputar atenção com milhões de músicas. Além de produzir, precisam lidar com redes sociais, vídeos, métricas, playlists e sistemas de recomendação.
A transformação também alterou a maneira de ouvir álbuns. Kombi critica a preferência por singles e playlists, enquanto Lima chama de “dislexia digital” a perda de profundidade na escuta de discos planejados para serem ouvidos do início ao fim.
Pimentel relaciona essa mudança ao começo dos anos 2000, quando o iTunes passou a vender faixas avulsas por US$ 0,99. Para ele, a escuta fragmentada dificulta a experiência de obras concebidas como narrativas completas, como “The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd, e “Reign in Blood”, do Slayer.
A conclusão do pesquisador é que a disponibilidade permanente pode reduzir o valor atribuído à música. “Ela está sempre ali, disponível, de graça. Virou água da torneira: você não valoriza aquilo.”








