SÃO PAULO — Rashid apresenta neste sábado, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, o show de estreia de “Cumulonimbus”, álbum lançado em agosto com 15 faixas. O disco reúne reflexões sobre a trajetória do rapper, as mudanças do rap brasileiro e o lugar da palavra na música.
O título faz referência à cumulonimbus, nuvem associada a uma grande tempestade. A imagem representa o acúmulo de duas décadas de carreira e a transformação de inquietações pessoais em canções. Para Rashid, o projeto retoma elementos centrais do gênero sem tentar reproduzir os sons dos anos 1990 ou 2000.
Palavra, memória e presente
A proposta é recuperar o espírito de um período em que uma música podia durar vários minutos e manter o ouvinte concentrado no que o MC tinha a dizer. “Eu voltei para a base, para a essência. Beat e rima, MC e DJ”, afirma o rapper.
O álbum também parte de uma avaliação sobre a expansão do rap. O crescimento do gênero abriu caminhos para artistas brasileiros e ampliou suas possibilidades, mas, na visão de Rashid, afastou parte dos valores que formaram a cultura no país. Ele reconhece ter participado desse processo ao buscar aproximação com outros gêneros e novos públicos.
“Cumulonimbus” marca, então, uma decisão de retorno ao rap, mas sem defender uma forma fixa para o gênero. O incômodo do músico está na transformação da música em fórmula, submetida à velocidade das redes sociais, à ostentação e à distância em relação às ruas e comunidades.
Em “O que Dizem os Números”, uma ideia inicialmente técnica se transforma em uma faixa construída a partir de pesquisa. A composição aborda escravidão no Brasil, ausências familiares e desigualdades. Para Rashid, a música mostra como um MC pode prender a atenção pela palavra e pela rima.
Participações e novas referências
“Criado por Mulheres” faz uma ligação com artistas que, segundo Rashid, recuperaram uma disposição coletiva presente em parte da cena. Ele cita Duquesa e outras mulheres ligadas ao cotidiano, à quebrada e à coletividade. O álbum também reúne Luedji Luna, Jota Ghetto e MC Neguinho do Kaxeta. Emicida e Projota participam de uma faixa sobre a amizade entre os três.
Cairo, filho de Rashid, aparece de outra maneira: uma frase dita pelo menino, “papai, o Sol já chegou”, foi incorporada a uma música. O momento ficou registrado no disco.
Rashid rejeita a ideia de que o rap precise ser resgatado. Para ele, o gênero pode assumir diferentes formas, desde que preserve autenticidade. A intenção é provocar no público uma experiência parecida com a que ele teve ao descobrir Racionais MCs, RZO, Sistema Negro e outros grupos que fizeram parte de sua formação.
O rapper espera que o álbum leve alguém a buscar música, livros, filmes ou batalhas de rima e a assumir um papel ativo na própria formação. Se isso acontecer com uma única pessoa, ele considera que a tempestade criada por “Cumulonimbus” terá cumprido seu papel.








