SÃO PAULO — A Pinacoteca de São Paulo abre neste sábado (5) a exposição “Ismael Nery: Armadilha Moderna”, com 230 trabalhos do artista. A retrospectiva revisita classificações ligadas à produção de Nery, como cubismo, surrealismo, modernismo e leituras queer, sem substituir um rótulo por outro.
Curador da mostra, Yuri Quevedo afirma que as tentativas de enquadrar Nery levam a novos desvios na obra. Formado na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, o artista trabalhou como funcionário público e colaborou com o arquiteto Josino de Souza Camargo, ligado ao movimento neocolonial.
A relação com o neocolonialismo contrasta com a apresentação tradicional de Nery como um modernista distante dos debates nacionais. Em suas aquarelas, aparecem cenas urbanas, edifícios, carnaval, artistas e tipos sociais. A cidade também surge na tensão entre tradição e modernidade, com Paris e Rio de Janeiro representados como forças em confronto.
Corpo, fé e identidade
A geometrização das figuras levou à associação de Nery com o cubismo. Quevedo, porém, diferencia o procedimento do artista daquele adotado por Pablo Picasso, Georges Braque e Juan Gris. Em vez de multiplicar pontos de vista sobre um mesmo objeto, Nery construía os corpos como combinações de partes, como pescoço, tronco, cabeça e mãos.
Essa fragmentação também envolve a identidade. Em alguns retratos, o próprio artista aparece com traços femininos e combinações de gênero. Para o curador, a leitura queer pode contribuir para a compreensão da obra, desde que considere o vocabulário usado por Nery.
A dimensão religiosa é central nessa interpretação. Nery colaborou com as revistas “A Ordem” e “Festa” e desenvolveu o essencialismo, doutrina voltada à busca do chamado homem essencial. Segundo Quevedo, o artista entendia que tempo e espaço alteravam o corpo e sua identidade. A forma plena estaria ligada à imagem e semelhança de Deus.
Na produção, essa ideia aparece na redução progressiva dos corpos: figuras com volume e características individuais se transformam em linhas, silhuetas e símbolos. Com o apagamento das marcas pessoais, também diminuem as referências a gênero e identidade.
A associação com o surrealismo
O contato de Nery com Marc Chagall e Max Ernst, durante sua passagem por Paris, contribuiu para a aproximação com o surrealismo. Suas figuras híbridas e cenas fantásticas reforçam essa leitura, mas Quevedo aponta uma diferença: enquanto o surrealismo europeu usava o sonho como método e buscava afetar a consciência do espectador, as imagens de Nery apresentariam construções visuais baseadas em ideias.
O título da mostra remete a uma passagem de André Breton sobre Salvador Dalí. Na leitura de Quevedo, Nery também atrai o observador, mas não para desorganizá-lo. Suas obras indicariam uma construção utópica, relacionada à superação das limitações do tempo e do espaço.
Nery morreu em 1934 e ficou afastado da cena artística por décadas. Nos anos 1960, o crítico Antônio Bento ajudou a recolocá-lo no debate e o apresentou como um artista “fora do tempo”. Leituras posteriores reforçaram a imagem de “gênio incompreendido”.
A retrospectiva também examina a construção do artista como figura maldita, isolada e mística. O poeta Murilo Mendes, amigo de Nery, guardava obras descartadas por ele e publicou textos sobre sua vida depois de sua morte.
Títulos e datas de vários trabalhos foram definidos posteriormente, em meio a lacunas documentais e à dificuldade de acesso a algumas coleções. A mostra reúne uma produção que permaneceu dispersa e, por décadas, foi conhecida apenas de forma fragmentada.








