A exposição de Rosana Paulino em Nova York coloca no centro da galeria as páginas de “História Natural”, livro-manifesto artesanal contra o racismo científico que completa dez anos. A mostra fica no Vera List Center, ligado à New School, no Village, em Manhattan.
A artista paulista também recebeu o Jane Lombard Prize, concedido pelo centro de pesquisa a um projeto de longo prazo com impacto em temas de justiça social. Paulino é a segunda brasileira a receber o prêmio, depois de Maria Thereza Alves, reconhecida em 2017.
Livro, estudos e colagens
As páginas de “História Natural” foram dispostas sobre uma grande mesa de madeira, concebida como uma imitação de mesa de ensino. Dois cadernos de notas da artista também são apresentados ao público pela primeira vez. Eles reúnem ideias iniciais, estudos e anotações sobre questões práticas, como a impressão em tecido e a escolha da tinta.
A proposta de criar um projeto educativo partiu da própria Paulino, que é professora. Ao redor da mesa estão colagens recentes, incluindo a série “Brotações”, na qual mulheres negras aparecem dentro de sementes e ligadas à terra por cordões umbilicais.
A mostra também reúne trabalhos que combinam fauna e flora brasileiras com imagens de pessoas escravizadas no período colonial. Os rostos aparecem cobertos de preto, enquanto os corpos remetem aos “tipos” presentes nos livros de história.
“Para curar os males causados por essas imagens, só usando as mesmas imagens, mas em outra chave”, afirmou Paulino ao explicar a escolha de reutilizar representações estereotipadas para combater a ideia de superioridade branca.
Na entrada da sala, uma bandeira ocupa uma parede inteira. A obra traz a palavra “Pretuguês”, referência à herança negra na língua portuguesa, e o rosto de uma mulher negra que remete, para o visitante brasileiro, a Marielle Franco.
Presença internacional
A exposição é organizada pelas curadoras Eriola Pira e Carin Kuoni. O trabalho de Paulino também está presente no Studio Museum, no Harlem, e uma das três cópias de “História Natural” integra o acervo do MoMA.
A artista participou da última Bienal de Veneza ao lado de Adriana Varejão e já havia estado no pavilhão brasileiro em 2022. Em 2024, tornou-se a primeira artista negra a expor no Malba, em Buenos Aires. Ela também tem uma exposição prevista em Paris.
“Brasil e Estados Unidos tiveram escravidão, e são marcados de maneira parecida”, disse Paulino antes de viajar para Nova York. No catálogo, a curadora Diane Lima define a produção da artista como uma forma de resistência epistemológica contra um modo de conhecimento colonial e preconceituoso.








