A crítica de J.R.R. Tolkien à cultura do automóvel aparece como uma narrativa pós-apocalíptica em “Os Fragmentos de Bovadium”, livro póstumo editado por seu filho Christopher Tolkien. A obra descreve a destruição de uma antiga cidade de sábios por máquinas tratadas como monstros e retoma preocupações filosóficas e teológicas presentes na ficção do autor.
O título vem de Bovadium, tradução para o latim do nome Oxford. A palavra significa “vau para bois”, referência à parte rasa de um rio usada pelo gado para atravessar até a outra margem. O recurso reproduz uma estratégia frequente de Tolkien, que apresentava livros como “O Hobbit” como traduções de manuscritos antigos.
Ruínas e manuscritos
Na história, arqueólogos de um futuro distante encontram as ruínas de Bovadium. Eles acreditam que as construções imponentes da Universidade de Oxford eram fortalezas de um reino desaparecido. Inscrições em latim e inglês são classificadas como “idioma A” e “idioma B”.
A partir dos manuscritos, os pesquisadores reconstituem a queda da cidade. Um “Daemon”, termo que originalmente significava espírito ou divindade menor, cria máquinas chamadas “Motores”. Os moradores passam a abrigá-las, abastecê-las com óleos e construir casas para elas nos jardins.
O Daemon promete que os veículos levarão seus donos a qualquer lugar em alta velocidade, permitindo que ultrapassem os demais e deixem de caminhar. A promessa de controle e liberdade dá início à tragédia.
O livro quase foi enviado por Tolkien a revistas literárias britânicas, mas o autor desistiu após um amigo considerar o texto hermético por causa do latim. As passagens no idioma aparecem acompanhadas de tradução.
Tecnologia e dominação
Christopher Tolkien, testamenteiro literário do pai, editou a obra antes de morrer em 2020. Diferentemente da maioria dos livros póstumos do autor, “Os Fragmentos de Bovadium” estava quase pronto para ser submetido à publicação.
Na interpretação apresentada pela narrativa, o Daemon se aproxima de vilões como Sauron, de “O Senhor dos Anéis”, e Morgoth, de “O Silmarillion”. Todos oferecem alguma forma de controle sobre a natureza e sobre a vontade de outras pessoas.
A história começa com o motor de combustão interna e termina com uma alusão ao transumanismo, descrito como o projeto de superar limites biológicos e cognitivos. O tema aproxima a sátira de Tolkien dos debates sobre inteligência artificial e biotecnologia.








