Emmanuel Carrère afirma que escrever é uma forma de organizar experiências dolorosas e diz que se tornou mais feliz com o passar dos anos. O autor francês também reconhece que sua literatura autobiográfica pode incluir autoflagelação, além de admitir arrependimento pela maneira como expôs uma ex-namorada em “Um Romance Russo”.
A escrita como saída
Carrère conta que tentou encontrar alívio em tai chi chuan, meditação, ioga, medicação, eletroconvulsoterapia e cristianismo. Ainda assim, diz que a escrita continua sendo o recurso que o ajuda a enfrentar períodos difíceis. “Não importa o que aconteça, eu penso que talvez possa escrever sobre aquilo, e isso me dá uma espécie de, se não sentido, forma”, afirma.
Ele espera ter passado da infelicidade neurótica para uma infelicidade comum, ideia associada por ele a Freud. “As coisas melhoraram com a idade. Sou mais feliz, eu diria.”
O escritor rejeita a necessidade de classificar seus livros como romances ou memórias. Para ele, a não ficção envolve um compromisso com o leitor: contar a verdade, mas também deixar claros os limites do que pode ser narrado. Em “Ioga”, por exemplo, retirou a ex-mulher da obra depois que ela disse não querer aparecer no livro.
Culpa e exposição
Em “Um Romance Russo”, Carrère considera ter tratado a então namorada como personagem, e não como uma pessoa real. Os dois retomaram a amizade, e ele diz que esse é o único episódio de toda a sua obra de que se arrepende sinceramente.
O autor afirma não se incomodar tanto com críticas que o chamam de narcisista ou autocentrado. Segundo ele, a escrita autobiográfica pode seguir tanto o caminho da autoglorificação quanto o da autoflagelação, tendência com a qual se identifica mais.
Carrère também diz aceitar perguntas sobre sua vida porque escolheu se colocar nessa posição. Na narrativa em primeira pessoa, iniciada em “O Adversário”, ele vê uma forma de reconhecer que apresenta apenas aquilo que conseguiu compreender, sem assumir uma suposta objetividade total.
Família, Rússia e verdade
Em “Colcoz”, Carrère revisita a história de seus antepassados, a imigração russa, as guerras mundiais, o comunismo e a trajetória de sua mãe, Hélène Carrère d’Encausse. O livro também aborda o pai do escritor e o avô Georges Zourabichvili, que colaborou com a ocupação nazista na França.
Ao tratar do avô, o autor diz ter buscado compreender melhor um homem que enfrentou transtorno bipolar e viveu em circunstâncias difíceis. Carrère afirma que não pretendeu defendê-lo ou redimi-lo, mas explicar sua importância para a mãe e para a família.
O escritor acredita que “Colcoz” encerra sua obsessão com a Rússia, tema que considera ligado à própria história familiar. A obra mais recente também retoma a relação entre luz e sombra na trajetória dos pais, além do impacto da morte da mãe.
Carrère esteve entre os concorrentes ao Goncourt pela primeira vez em 1988 e diz não entender por que não recebeu votos em sua última participação. “Não acho que eu seja o pior escritor francês”, afirma.
O autor também diz confiar nos leitores para atravessar as dificuldades de “Colcoz”, comparando a leitura a uma caminhada exigente que recompensa o esforço. Entre seus lançamentos no Brasil estão ainda “Ioga”, publicado em 2023, e a nova edição de “O Adversário”, lançado na França em 2000.








