A Transparência Internacional defendeu o afastamento do ministro Alexandre de Moraes do Supremo Tribunal Federal (STF), alegando risco de interferência nas investigações sobre seu envolvimento com Daniel Vorcaro. A manifestação foi divulgada nesta sexta-feira (4), enquanto o presidente da Corte, Edson Fachin, determinou que os envolvidos na crise se manifestassem.
A entidade também pediu o afastamento e a investigação de autoridades que possam estar implicadas ou obstruindo mecanismos constitucionais de responsabilização. No documento, afirmou que as vias de resolução da crise podem estar sendo bloqueadas pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, e pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Alcolumbre é responsável por pautar processos de impeachment contra ministros do Supremo, mas, conforme a manifestação, tem se recusado a incluir essas matérias na ordem do dia. A organização afirmou que o STF, o Senado e o Conselho Superior do Ministério Público devem atuar para desbloquear os mecanismos previstos na Constituição.
Na terça-feira (1º), o ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório sobre conversas e encontros entre o dono do Banco Master e Moraes. No mesmo dia, Moraes determinou, no inquérito das fake news, que a Polícia Federal enviasse relatórios que mencionassem integrantes do Supremo. Na noite desta quinta-feira (3), o ministro redigiu despacho em que apontou interferência e seleção de alvos por Mendonça nas operações Compliance Zero e Sem Desconto. Para a Transparência Internacional, a medida representa uma “retaliação autoritária”.
Relatórios citados na crise
O relatório da Polícia Federal sobre Moraes menciona contratos do escritório de sua esposa, Viviane Barci, além de encontros e mensagens. Em 2024, as tratativas eram intermediadas por Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações no governo de Jair Bolsonaro (PL).
Uma mensagem encaminhada por Fábio a Vorcaro confirmava um encontro às “18h na casa do Alexandre”. O conteúdo também mencionava aula na USP pela manhã e uma banca de doutorado. Moraes é professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).
O encontro teria incluído discussões sobre a participação do ministro no Fórum Jurídico Brasil de Ideias, em Londres, patrocinado pelo Banco Master. Moraes teria convidado Gilmar Mendes e solicitado a presença de Michel Temer. Em outra conversa, o banqueiro classificou o fórum como um evento com Alexandre de Moraes em Londres. A diretora de marketing Ana Matos também perguntou se Vorcaro entregaria um troféu ao ministro durante o evento.
Em 2025, as conversas teriam deixado de ser intermediadas. Vorcaro passou a enviar mensagens elogiosas e a pedir que o contato atribuído ao ministro atuasse em favor dos interesses do banco. Em um diálogo, solicitou que fossem reforçadas a Andrei e Paulo informações sobre supostas pressões de integrantes do Ministério Público Federal (MPF) e da Procuradoria-Geral da República (PGR) para que o Banco Central (BC) tomasse medidas relacionadas ao Master.
Sobre Mendonça, o despacho de Moraes cita um relatório de inteligência da PF sobre as operações Compliance Zero e Sem Desconto. O documento menciona suspeitas de improbidade administrativa, crimes de responsabilidade e abuso de autoridade. A corporação afirma que o ministro teria invadido competências da polícia ao conduzir as investigações e selecionado alvos por critérios pessoais e políticos.
O relatório também questiona a determinação para que provas fossem enviadas em formato bruto ao gabinete de Moraes, sem análise de um delegado. Segundo a PF, essa etapa é necessária para avaliar a cadeia demonstrativa, retirar conclusões sem apoio nos elementos e ajustar o grau de assertividade das informações.
Outro documento afirma que parte do acervo mais sensível da Operação Sem Desconto estava sob custódia de uma única agente, sem trilha adequada de auditoria. O despacho cita que, em 8 de agosto de 2026, uma foto extraída do celular do senador Weverton Rocha (PDT-MA) foi divulgada, embora não estivesse nos autos. A imagem teria sido inserida em uma minuta da PF e retirada posteriormente.
Além da Transparência Internacional, a oposição e a OAB-PR defenderam o afastamento de Moraes. O jurista Miguel Reale Júnior avaliou que o ministro atua em causa própria ao usar o inquérito das fake news para retaliar Mendonça.








