A Igreja Católica documentou 304 mártires nas Américas neste século, entre homens e mulheres assassinados por professar a fé, defender os pobres, confrontar o crime organizado ou proteger a criação. O catálogo global promovido pelo Vaticano já reúne mais de 1.700 casos.
O cardeal Marcello Semeraro, prefeito do Dicastério para as Causas dos Santos, afirmou que muitos dos assassinatos tiveram relação com o narcotráfico, o desmatamento e a oposição à exploração de recursos naturais. Entre os registrados estão missionários e fiéis leigos que denunciaram narcotraficantes, defenderam territórios indígenas e combateram atividades ilegais.
Segundo Semeraro, essas pessoas se tornaram inconvenientes para grupos que controlam atividades ilícitas. O testemunho cristão, nesses casos, entrou em conflito com interesses econômicos e estruturas criminosas.
Conferência no Vaticano
As informações foram apresentadas durante a divulgação da conferência internacional “O Século XXI: Uma Nova Era de Mártires?”. O encontro, organizado pela Comissão para os Novos Mártires — Testemunhas da Fé, estava previsto para 15 de setembro, no Instituto Pontifício Agostiniano, em Roma.
Participariam do evento o cardeal Fridolin Ambongo, arcebispo de Kinshasa, na República Democrática do Congo; o cardeal Pierbattista Pizzaballa, patriarca latino de Jerusalém; e Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio. Também estavam previstos especialistas como o arcebispo Fabio Fabene, a jornalista Lucia Capuzzi, o historiador padre Roberto Regoli e a religiosa sul-sudanesa Alice Jurugo Drajea.
Dados divulgados pela comissão indicam que 1.624 mártires foram documentados no mundo entre 2000 e 2025. Desse total, 304 eram das Américas. O registro recebeu entre 100 e 150 novos testemunhos apenas no último ano.
A comissão reúne relatos para preservar a memória dos cristãos mortos por sua fé e documentar formas de perseguição e testemunho. Semeraro destacou que a santidade não se limita às pessoas oficialmente canonizadas. Floribert Bwana Chui, membro da Comunidade de Santo Egídio assassinado em 2007 por se recusar a aceitar subornos, foi beatificado em 2025.
A iniciativa ocorreu um ano depois da celebração dos mártires e testemunhas da fé do século XXI, presidida em 14 de setembro de 2025 pelo Papa Leão XIV com representantes de outras igrejas e comunidades cristãs, na Basílica de São Paulo Extramuros.
Andrea Riccardi afirmou que a Igreja vive uma “nova era de martírio”. Ele lembrou que São João Paulo II promoveu a coleta de testemunhos de mártires do século XX para o jubileu do ano 2000. A comissão foi reativada e consolidada pelo Papa Francisco, que considerava que “o tempo do martírio continua”.







