A renda anual de uma sul-coreana caiu 72% depois que ela deixou um emprego em uma empresa de serviços públicos e passou a trabalhar como cuidadora em meio período. Aos 61 anos, Park Jae-soon recebe 15,6 milhões de won, ante 55 milhões de won antes da aposentadoria — valores equivalentes a cerca de R$ 62 mil e R$ 220 mil.
O caso integra um relatório da Human Rights Watch (HRW) sobre como a desigualdade econômica acompanha as mulheres na Coreia do Sul ao longo da vida profissional. Em outubro de 2025, elas recebiam, em média, 53% do valor da pensão nacional por velhice paga aos homens.
A HRW entrevistou 41 sul-coreanas de 28 a 87 anos. O relatório recomenda o fim da idade obrigatória para aposentadoria e do chamado “salário de pico”, mecanismo que permite reduzir a remuneração de trabalhadores mais velhos antes da aposentadoria.
Diferenças desde o início da carreira
Aos 27 anos, as mulheres ganham, em média, 8% menos que os homens. No fim dos 50 anos, a diferença chega a 50%. Os salários femininos atingem o nível mais alto no fim dos 30 anos e depois entram em queda constante, conforme dados de pesquisas do Ministério do Trabalho citados pela HRW.
Um estudo de 2024 indicou que, 1 ano depois da conclusão do ensino superior, as mulheres já ganhavam 22% menos que os homens. Embora superem os homens em formação universitária desde os anos 1980, elas enfrentam interrupções de carreira, segregação ocupacional e discriminação institucional.
Em 2024, as mulheres ocupavam 18% dos cargos de gerência no país. Na administração pública, apenas 5 dos 38 altos funcionários eram mulheres.
Min Hee Kim, ativista sul-coreana pelos direitos trabalhistas das mulheres, afirmou que “a divisão de trabalho por gênero dentro de casa leva diretamente a uma divisão de trabalho por gênero no mercado de trabalho”. Segundo ela, responsabilidades de cuidado levam muitas mulheres a aceitar ocupações de menor remuneração ao tentar retornar ao mercado.
Aposentadoria e políticas públicas
O governo sul-coreano informou que pretende elevar gradualmente a idade legal de aposentadoria de 60 para 65 anos. Para Kim, a medida, sozinha, não resolve o problema. Ela defende a aplicação efetiva de salário igual para trabalho igual, maior transparência nas estruturas salariais e o tratamento do cuidado como responsabilidade pública.
A Coreia do Sul mantém, desde 1992, a maior diferença salarial entre homens e mulheres entre os países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O Ministério da Igualdade de Gênero atribuiu parte da disparidade às interrupções na carreira, à segregação ocupacional e à discriminação dentro das instituições.
Até os anos 1980, empresas podiam demitir mulheres por se casarem. Hoje, segundo Kim, a discriminação mudou de forma, mas as responsabilidades familiares continuam afetando as trajetórias profissionais. A HRW também apontou que mulheres que deixam o trabalho por casamento ou maternidade muitas vezes retornam em ocupações como atendimento em call centers, limpeza ou cuidado.








